E lá se foi o senhor Júpiter, não o planeta, mas um senhor cujos pais o registraram assim, Júpiter da Silva. Lá se foi de sua terra natal para uma viagem internacional ganha em um desses sorteios malucos que vez ou outra uma rede de televisão promove. Como acompanhante, que viagem de sorteio sempre tem acompanhante, levou a esposa, uma senhora bem apessoada, com segundo grau completo, assim como ele, mas que jamais saíra de seu rincão, um município com seus 20, 22 mil habitantes. Verdade seja dita, o senhor Júpiter, de tanto medo de enfrentar avião, queria vender o prêmio, mas a rede de televisão não permitiu, disse-lhe que era intransferível. Não podendo vender o seu prêmio, que se transformara em agonia, o casal exigiu então um guia que os conduzisse ao menos de sua cidadezinha até a poltrona do avião. E assim foi feito.
Saíram de madrugadinha e o casal foi vendo que além de sua cidade havia muitas outras, maiores, que eles já tinham ouvido falar, tinham visto pela televisão, mas que agora eles estavam passando por elas, tomando cafezinho em locais próprios, almoçando e jantando em restaurantes onde eles próprios podiam servir-se do que quisessem e o quanto pudessem comer. No primeiro pernoite assustaram-se um pouco com o conforto do apartamento em que ficaram, mas cansados da viagem, dormiram o sono dos justos e desendividados.
Mais um dia de viagem e chegaram à São Paulo. Eita cidadão! Passando pela marginal Tietê, não resistiram à tentação de respirar o ar fresco que normalmente existe às beiras de rios e abriram os vidros do carro. Santo Deus! Fecharam imediatamente e curtiram horas e horas de congestionamento, aproveitando o ensejo para perguntar ao guia sobre como deveriam se comportar durante a viagem.
Enquanto o avião arremetia deram-se as mãos e apertaram-nas. Mas logo foram afrouxando o aperto, o frio na barriga passou e eles em poucos minutos estavam em vôo de cruzeiro e se sentiam como se estivessem assentados em uma sala confortável.
Na cidade espanhola onde ficaram não tiveram grandes problemas com o idioma, netos de espanhóis, conseguiram fazer-se entender. Mas os dias lá passados foram de espanto: as ruas limpas como se fosse a sala de visitas da família, ninguém atirava um só papel de bala ao chão, os carros paravam antes das faixas brancas para darem preferência aos pedestres, no centro da cidade circulavam apenas ônibus e bicicletas, disciplinadas em faixas especialmente destinadas aos ciclistas. E, pasmem, eles tiveram que alugar duas bicicletas para se locomoverem pela cidade. As magrelas estavam estacionadas na calçada, em um bicicletário de onde foram retiradas, mas eles nem precisaram devolvê-las no mesmo local, depositaram-nas em outro lugar, também apropriado para recebê-las.
Da mesma forma que no centro da cidade, o senhor Júpiter e a esposa notaram que os carros não deixavam as crianças nas escolas. As escolas eram literalmente cercadas por calçadões e as crianças andavam três a quatro quadras à pé. Isso, se por um lado impedia o congestionamento, por outro dava às crianças a oportunidade de conviverem, correrem, brincarem.
O casal achou isso um absurdo, mas deixou para falar apenas quando voltou de viagem e era inquirido pelos vizinhos e parentes. Entre uma tragada e outra, seu Júpiter ia narrando passo a passo a sua aventura. Coisa louca, dizia ele, aquele povo da Europa é tudo escravo, nem jogar um toco de cigarro na rua pode. Imagine então o que fazem com as crianças, deixam as pobres coitadas três quatro quadras longe da escola, e olha que as ruas são bem conservadas. É uma doideira. Boa mesmo é São Paulo. É carro pra todo lado, zum, zum, zum e aquela alegria do som das buzinas, parecendo festa. Eita cidade moderna? Até a água do rio tem cheiro. É verdade que no dia em que passamos por lá o cheiro não estava muito agradável, mas afinal não se bebe água de rio.