Os pensamentos são as asas do homo sapiens. Lupicínio Rodrigues já cantara, em Felicidade, que “o pensamento parece uma coisa à toa, mas como é que a gente voa quando começa a pensar...” E, de fato, podemos ir à nossa “casa que fica atrás do mundo” em apenas um segundo, podemos ganhar na mega-sena e aplicar todo o dinheiro, assim como podemos pensar em inventos, livros, poesias e, inclusive, na própria morte.
Dias atrás estava refletindo sobre a posição de um autor ateu, José Saramago, que não crendo na vida pós-morte escreveu um romance maravilhoso em que a Morte apaixona-se por seu personagem e tira umas férias de seu cruel oficio. Em Intermitências da Morte Saramago achou uma saída, ao invés de acreditar em outra vida preferiu dar folga para a morte para que todos continuassem vivos. Mas romance é romance, e a vida nessa Terra um dia acaba-se, como inclusive acabou para ele, Saramago, falecido em 18 de junho de 2010.
Continuando as minhas reflexões sobre a morte, evitei pensar que ela esteja próxima de mim, ao contrário, desejo ter a longevidade e a saúde de meus antepassados, no entanto, cheguei até mesmo a imaginar o meu próprio velório.
De imediato assustei-me. Será que estando lá, dentro de um caixão, eu assistiria às cenas do velório, evidentemente através de uma alma que já teria se desalojado de meu corpo e estivesse ali ainda, rondando o ambiente? Olhando sem ser visto, com certeza veria que minha mulher, companheira e amiga de tantos e tantos anos, estaria pálida, na cabeceira do caixão, já sem lágrimas, mesmo que eu estivesse avançado em idade. Os filhos, por certo, lamentariam a ausência de um pai que sempre foi muito presente em suas vidas. Os netos, bem, quanto aos netos, para saber o tamanho de seus pesares, dependeria de tê-los, dependeria de suas respectivas idades e da convivência mantida com eles ao longo de minha vida. Meu irmão estaria muito sentido, pois estaria velando o seu único irmão. Da mesma forma a sua micro-família. Outros parentes, nem tão próximos, provavelmente se esqueceriam de alguma eventual desavença e haveriam de buscar no fundo da memória as lembranças de boas coisas vividas.
Em relação aos amigos e conhecidos, que haveria de ser? Alguns iriam velar-me por consideração verdadeira, podendo até mesmo verter algumas lágrimas, como eu mesmo o fiz na despedida de um de meus amigos queridos, outros amigos também poderiam estar presentes por consideração à família do falecido, no caso eu mesmo.
Por certo não deixariam de comparecer também alguns daqueles que se diziam amigos, mas que foram na verdade amigos da onça, esses estariam ali para continuarem demonstrando aos familiares e aos verdadeiros amigos do defunto, que eram bons companheiros sem na realidade o serem.
E eu, o defunto falecido, prestes a ser colocado na parte que me caberia nesse mundo, ou seja, em uma lápide de concreto, ao cabo da vida, estaria lá, em um canto, observando tudo, claro que com uma vontade enorme de dizer alguma coisa em agradecimento aos presentes, ou em repúdio aos falsos amigos, mas infelizmente sem poder manifestar-me, mesmo porque nunca vi em vida e nem tive conhecimento por intermédio de meus pais, avós e bisavós de que os mortos pudessem se comunicar com os vivos.
Confesso que a minha viagem por esses pensamentos um tanto macabros causaram-me uma sensação muito estranha por imaginar-me dentro de um caixão, sendo velado. Mas fez-me compreender que esse desconforto de pensar na morte é que leva a maioria das pessoas a evitar tratar sobre ela, embora todos saibamos que a morte é a única certeza que temos nessa vida.
Enfim, o consolo para o meu pensamento, como já disse, veio com a possibilidade da existência da alma. Imagine-me lá, presente, alma invisível, esperando a partida para o Éden, mas tendo um tempinho para contemplar cada ação dos presentes e até mesmo os seus pensamentos. Já pensou se um desgraçado de um amigo já estiver de olho na viúva, caso ela ainda esteja nova por época de minha morte? E o filho de uma mãe fazendo cara de tristeza, dando os pêsames aos meus parentes e no íntimo dizendo que já fui tarde?
Bem, existem aqueles que chegam a dar a vida por uma causa, mas esses são minoria e assim procedem por terem a mais absoluta convicção de que irão para uma dimensão melhor ou por acreditarem que a causa que defendem é mais importante que a própria existência. Bom, isso sem contar aqueles que, por algum tipo de insanidade mental, não dão conta de suas existências ou desprezam a vida entregam-na às drogas ou ao suicídio. Mas não é meu caso, que amo a vida de tal forma que mesmo as experiências mais amargas eu as procuro aproveitar como aprendizado.