Precoce nos Estados Unidos, a febre dos cartões chegou recentemente ao Brasil e pessoas humildes gastaram o que jamais poderiam, iludidos com as facilidades do crédito. Gastou tem que pagar, mesmo que seja um pagamento negociado. Daí o título dessa crônica, que poderia ter sido invertido: benditos os malditos cartões. A ordem dos fatores não altera o produto, apesar de parecer uma contradição enorme. Mas o que não é contraditório em nossa sociedade? São as contradições que movem as mudanças. Os cartões de crédito ao mesmo tempo podem ser uma coisa ou outra, malditos ou benditos, dependendo de nossa atitude diante deles. São fruto do estágio mais avançado do capitalismo: o “capitalismo financeiro”.
Não vemos mais o dinheiro, nossas carteiras estão vazias, não regateamos os preços com o vendedor. Basta um clique, um clique e os cartões, reis de pequeno mandato, já perdem o seu trono para uma simples transferência bancária pela Internet ou mesmo pelos nossos comandos nos modernos smartphones.
A ordem é comprar. A sociedade se consome com o consumismo. Tivemos um deputado do clã dos Magalhães, chamado Eduardo, que usava uma única vez suas camisas. Trezentas e sessenta e cinco camisas por ano. Absurdo?
Meus bisavós diziam aos meus pais que eles ainda haveriam de ver os carros andarem sem os bois. Já os meus avós nos falavam que o dinheiro haveria de ser de plástico. Que direi eu ao meu neto? Que o dinheiro é uma coisa abstrata? Invisível, mas imprescindível? Talvez eu seja um privilegiado, por ser historiador poderei contar-lhe sobre as transformações ocorridas na humanidade: da luta renhida pela sobrevivência à organização tribal, a economia pelas trocas, a origem das primeiras letras de câmbio na Idade Média, o dinheiro em moeda, que valia tanto quanto o metal que o produzira, o surgimento do papel moeda com lastro em ouro nos tesouros nacionais. E se ele me perguntar para que serve esse lastro, se hoje o ouro não regula mais a quantidade de moeda circulante? Aliás, que moeda, se tudo é virtual?
Recuperarei o fôlego e lhe explicarei que as sociedades geram sistemas econômicos, políticos e sociais de modo a garantirem a sobrevivência humana, que nesses sistemas existiram e ainda existem explorados e exploradores, opressores e oprimidos, burgueses e proletários... e tentarei continuar, mas meu neto dirá educadamente: “vovô, espere um pouco, vou pedir um chocolate pela Internet, pois já descobri a senha do papai e logo em seguida volto para ouvir as suas histórias que, diga-se de passagem, são pouco engraçadas”.
Não tem jeito. Nada mais tem jeito. Conselhos? Ora! Recostar-me-ei na cadeira reclinável que ganhei anos atrás e ficarei a imaginar que domingo é dia dos pais. Que ganharei dessa vez? Uma nova televisão para ver o glorioso Palmeiras na série B do campeonato brasileiro? Uma adega que conservará o meu humilde vinho chileno à temperatura de 16 graus, graças à nossa vizinhança com Pedro Juan Caballero? Qual dos meus filhos haverá de passar o cartão na maquininha engolidora de nosso salário futuro? Será o cartão deles ou de minha mulher? Não! Que não cogitem usar o meu próprio cartão. Seria o mesmo que conceder-me a aposentadoria de meus próprios desejos.
Bem, mas hoje é sábado. Tudo é possível por ser sábado. Lembro-me de Vinicius e de seu maravilhoso poema, mas já nem me recordo dos versos, porque afinal, hoje é sábado. Talvez haja tempo para uma reunião familiar e um dos filhos me pergunte: “o que o senhor gostaria de ganhar”?
Ah! Então estufarei o peito e direi cheio de confiança: quero vocês por perto, quero mais netos, quero paz, quero amor, quero um abraço... um abraço forte, sincero, um abraço que simbolize muito mais que um ato consumista. Se hesitar ao término de minha declaração, não será por faltar-lhe sinceridade, mas por lembrar-me de que quando completei quinze anos, meu pai e eu nos cotizamos para dar à minha mãe uma panela de pressão. Santo Deus! Quem presentearia hoje a mãe com uma panela de pressão, ou o pai com um instrumento de trabalho qualquer?
Mas, como ninguém é de ferro, se insistirem direi para me darem qualquer coisa, mas acompanhada de um abraço, do abraço que daria em meu pai não fosse a distância que nos separa.