Se não deixar outras contribuições importantes, o que duvido, Élio Gaspari será imortalizado por duas heranças legadas à nossa história: dois livros sobre a ditadura militar no Brasil (a Ditadura Envergonhada e a Ditadura Escancarada), que deveriam ser lidos por todos os cidadãos desejosos de um país livre de torturas, perseguições e arbitrariedades e a criação do neologismo privataria, palavra que significa um misto de privatização e pirataria. Elio Gaspari referiu-se, com esse termo, à escandalosa entrega do patrimônio transgeracional construído pelo povo brasileiro ao capital privado nacional e, principalmente, internacional. Foram-se as nossas telecomunicações, as nossas distribuidoras de energia elétrica, as nossas estradas, a nossa maior empresa mineradora, a Vale, por preço de banana, no tempo em que a banana era quase gratuita. Péssimo exemplo ao PT, que agora privatiza os aeroportos.
A Justiça, àquela época, ou fez vistas grossas ou não conseguiu detectar nenhuma bandalheira nesse processo, que teve como episódio secundário a compra de deputados pela importância de 200 mil reais, por Sérgio Mota, para garantir a (re)eleição de FHC. Coisa de não se admirar quando se trata de irregularidades tucanas, afinal, nada menos que 15 processos haviam sido arquivados em São Paulo em relação ao cartel do metrô e somente após a Siemens abrir a boca é que o escândalo explodiu.
Mas isso tende a silenciar. A mídia brasileira, de modo geral, tem por objetivo encontrar apenas os maus feitos do PT, tanto é verdade que, com os auspícios do Ministro Joaquim Barbosa, cozinha o mensalão em fogo brando ao mesmo tempo em que posterga qualquer iniciativa sobre o mensalão tucano. Prejuízo à democracia, pois tucanos e petistas se digladiam de tal forma que o povo já não acredita no Congresso Nacional e muito menos nos partidos.
Talvez esse povo que vai às ruas, que ocupa as Câmaras Municipais, pudesse acreditar no PMDB, não fosse os Renan(s) e Sarney(s), afinal, esse partido, primogênito do aguerrido Movimento Democrático Brasileiro, o MDB, sempre foi nacionalista. Bem, mas como em toda regra há exceção, não é que o governador André Pucinelli, agora cogita privatizar a Sanesul?
Não bastasse tê-la privatizado em Campo Grande, um episódio até hoje muito mal explicado, agora quer entregar 49% da empresa à iniciativa privada.
Conseguirá? Talvez. O governador tem muitos prefeitos que somente o são devido aos seus cuidados. Mas, com certeza, se isso ocorrer, Dourados será a cidade mais prejudicada. Vejamos: a Sanesul somente é a grande potência que é atualmente graças ao Plano de Aceleração do Crescimento, PAC, lançado no governo Lula pela então Ministra da Casa Civil, hoje presidente Dilma. As cidades sul-mato-grossenses, e em especial Dourados, foram contempladas com recursos jamais vistos em benefício do saneamento básico. Só em Dourados, ainda na época do governo Tetila, foram investidos 55 milhões. Depois, muito mais, nem sei a conta. No entanto, sei que Dourados sustenta a Sanesul no estado, principalmente com a cobrança exorbitante do esgotamento sanitário. Quando tive a honra de ser vereador, sugeri que o prefeito Tetila revogasse a concessão da distribuição de água e da captação de esgoto à Sanesul e que criasse uma autarquia para gerir essa atividade. Dourados lucraria muito em dinheiro e em prestação de serviços, a exemplo de centenas de municípios brasileiros.
Bom, deixemos as minhas sugestões e projetos para lá para mudarmos de assunto e dizer que, quando presidente, Sarney declarou que o governo “pode muito, mas não pode tudo”. Pucinelli, ao contrário, disse certa feita em elevadíssimo tom que jamais perdera um causa na Justiça, o que significa dizer que pode tudo. Portanto, se o italiano inventar de deixar o seu governo com as contas em dia, receberá a bagatela de 150 milhões por mais uma privataria. Minha esperança é de que o prefeito de nossa cidade, não obstante o gigantesco apoio recebido dos caciques de nosso estado para ser eleito, terá em consideração que Dourados e região lhe deram muito mais e que, portanto, ele não dirá amém a mais essa afronta.