Com 31 anos de carteira assinada, o porteiro de um condomínio de Ipanema, no Rio de Janeiro, Manoel Freitas de Brito, observava que os condôminos jogavam ao lixo as orquídeas após perderem as flores. Então teve uma ideia, coisa simples, resolveu amarrá-las em forquilhas de árvores das ruas do bairro. A ideia foi seguida por outros e mais outros, até transformar Ipanema em um bairro de referência, sendo chamada de “quadrilátero do charme”
Em São Paulo, Ibirapuera e Higienópolis, anônimos que apreciam o belo também floriram as suas ruas colocando orquídeas nas árvores. Basta um clique no Google para vermos fotos maravilhosas das flores que encantam os transeuntes daquelas regiões.
Em Campo Grande, na Afonso Pena, um ensaio paisagístico novo está tentando incrementar esse hábito de florir a cidade. Tomara que cole.
São muitos os bairros de cidades brasileiras que estão tomando iniciativas semelhantes. As orquídeas, depois que perdem as flores, dificilmente são cuidadas em apartamentos. Inclusive aqui em Dourados, alguns jardins internos, mas com vistas para rua, já são enfeitados com orquídeas. Mas, pelo menos até onde vão os meus conhecimentos, a grande campeã brasileira em cultivo de orquídeas em árvores das ruas é a cidade de Maripá, no Paraná. Fala-se em 340 mil orquídeas enraizadas nas árvores daquela cidade, o que lhe dá o honroso título de “capital das orquídeas”.
A iniciativa de cultivar orquídeas em árvores em Maricá coube à professora Ziria Dalchiavan, em 1993, e se consolidou com a promoção de gincanas estudantis que foram encampadas pelos moradores, que se tornaram fiscais desse orquidário ao ar livre. No início do projeto, foram necessários fiscais, porque houve um roubo de orquídeas: esses fiscais foram os próprios moradores, por considerarem esse ato um atentado ao patrimônio público, então, tomaram a iniciativa de conduzirem os ladrões à delegacia.
Hoje, Maripá nem delegacia possui. O prefeito atribui às flores a paz reinante na cidade. Não sei se tem razão. Será que a paz na cidade se deve realmente às orquídeas que dão tranquilidade aos habitantes, ou serão os habitantes de Maripá possuidores de elevado nível civilizatório, a ponto de alegrarem a cidade com flores?
Bem, mas o leitor que conseguiu chegar até a esse parágrafo haverá de perguntar-se aonde quero chegar. É que estou sabendo de um pequeno grupo de pessoas aqui de Dourados, gente que ama essa cidade e que a querem mais bela, que está se encorajando a lançar um projeto semelhante ao de Maricá e dos bairros cariocas e paulistas aqui em nossa cidade.
A ideia é relativamente simples. Esse pequeno grupo doaria cerca de 100 mudas para o projeto experimental. Ao mesmo tempo em que essas mudas forem afixadas nas árvores do Parque dos Ipês, os seus frequentadores seriam incentivados a fazer doações de uma orquídea que porventura tenha florido e que esteja inutilizada em sua casa. A seguir esse grupo visitaria, em primeiro lugar, a Escola Imaculada Conceição, isso porque essa escola está cercada por uma belíssima pista de caminhada. A sugestão nessa escola será de que cada aluno que tiver uma orquídea já sem as flores em sua casa, que a doe para ser afixada nas árvores da pista. Em seguida, outras escolas e Universidades deverão ser visitadas, e aos órgãos de imprensa local será pedido que incentivem essa prática: ao invés de jogarem no lixo a planta de orquídea que já deu flores, que a dependurem nas árvores defronte à sua casa.
Algumas mudas serão roubadas? Provavelmente. Dourados sofreu uma ruptura no projeto “Cidade Educadora”, o que poderia fazer com que os efeitos desse tipo de ação fossem mais efetivos, no entanto, a ideia de se começar a implantação do orquidário ao ar livre em pistas de caminhadas implicará em uma vigilância muito eficaz e o caminhante poderá ter nas flores um complemento para os seus exercícios aeróbicos.
O grupo prefere o anonimato, mas permitiu-me que convidasse as pessoas interessadas em contribuir para com esse projeto, enviando para o meu e-mail: biasotto@biasotto.com.br as perguntas que desejarem para melhor esclarecerem-se a respeito. Não somente pessoas físicas, mas também entidades que queiram participar.
Esse tipo de projeto depende muito do estágio civilizatório em que nos encontramos, mas como disse Henfil: “Se não houver frutos valeu a beleza das flores. / Se não houver flores valeu a sombra das folhas. / Se não houver folhas valeu a intenção da semente.”