Instigou-me a vontade de escrever essa crônica a notícia de que mais de 4,5 milhões de ingressos já foram pedidos à FIFA para os jogos da Copa de 2014 Com certeza o Brasil sofrerá uma invasão turística jamais vista. Só de hermanos argentinos serão em torno 220 mil, de norte americanos 200 mil. Ao todo, por enquanto, mais de 1,1 mi de pessoas de 200 países têm interesse em assistir os jogos e conhecer o Brasil.
Essa será a segunda copa que receberemos. A primeira, em 1950, ocorreu em nosso país porque a Europa estava concentrada em recuperar-se da 2ª Guerra Mundial e não tinha orçamento para o esporte. Em 50 foram utilizados seis estádios sendo que novos mesmo apenas o do Maracanã e o Independência em Belo Horizonte. As exigências de padrão FIFA somente começaram a ocorrer a partir da Copa de 1974. Nas primeiras Copas tudo era mais ou menos na base do improviso.
Atualmente o tal padrão FIFA oferece aos países organizadores a possibilidade de ampliarem os seus investimentos em acessibilidade urbana e melhoria dos meios de transporte. Para 2014 só em aeroportos estão sendo investidos 7 bilhões de reais, em mobilidade urbana 9 bilhões, em estádios 8,4 bilhões e o restante, de um total aproximado de 27 bilhões, estão sendo aplicados em segurança, portos, telecomunicações e turismo. Aproximadamente a metade desses recursos sairá dos cofres públicos e a outra parte da iniciativa privada.
A pergunta que não quer calar: vale a pena? Esses recursos não poderiam ter sido destinados à Educação e à Saúde?
Educação e Saúde são prioritárias, no entanto se não houvesse a Copa no Brasil esses investimentos não seriam viabilizados para essas áreas. Primeiro porque a iniciativa privada não entraria nessa questão, segundo porque prefeitos e governadores são cobrados pelos buracos nas ruas, pelo transporte, pela segurança e tantas outras demandas.
Particularmente penso que a Copa é bem-vinda. Em ano de Copa nos EEUU o PIB cresceu 1,4%, na França 1,3%, na Coréia 3,1%, na Alemanha 1,7%, no Japão caiu 0,3%, mas o país do sol nascente acabou de ganhar a disputa pelas Olimpíadas de 2020, o que significa dizer que acredita nas promoções desportivas por constituírem-se em investimento atraente. O recorde de turistas foi batido pela Alemanha com 2 milhões de visitantes. Em 2014 o Brasil não deverá quebrar esse recorde, mas receberá cerca de 1,5 mi de turistas, o que não deixa de ser um número significativo e atraente do ponto de vista financeiro, principalmente nesses tempos em que os brasileiros estão gastando mais no exterior do que os estrangeiros deixam para nós.
Atualmente o PIB brasileiro gira em torno dos 4,4 trilhões de reais. Se a Copa proporcionar um crescimento de 1,5% será um belo negócio. A Fundação Getúlio Vargas calcula que deverão ser injetados na economia brasileira 142 bilhões de reais, impactados na produção nacional de bens e serviços.
Por seu lado deverão ser gerados 3,6 milhões de empregos ao longo do preparativo para a Copa, segundo o ministro Aldo Rebelo. Previsão otimista, mas a realidade é que pela Copa ou pelo seu marcante crescimento econômico a taxa de desemprego em nosso país nunca esteve tão baixa. Procure um médico, um eletricista, um engenheiro, um pedreiro, enfim, para o desgosto dos políticos de direita, que gostariam sempre de ter um exército de reserva de desempregados para baratear o preço da mão de obra, temos quase que o pleno emprego.
Penso que no Brasil gostamos mais de futebol que de números, mas no caso da Copa, como a maioria verá os jogos pela TV, os números importam. E não só os números, não obstante toda a bandalheira que existe no mundo futebolístico, o padrão FIFA vai ajudar a promover uma considerável mudança nos hábitos dos torcedores brasileiros, estejam eles no campo ou vendo pela TV. Teremos uma grandiosa aula de civilidade. E já não é sem tempo, chega de confusão, de invasões de campo, de brigas entre torcidas, de transporte coletivo de má qualidade, desse clima de guerra.
Enfim, a Copa 2014, assim com as Olimpíadas de 2016, serão duas grandes janelas abertas para o Brasil se mostrar ao mundo, não mais com o complexo de vira-latas, termo de Nelson Rodrigues após a Copa de 50, mas a imagem de potência desportiva e econômica.