Verdade que a música de Marcos Valle e Paulo Cesar Valle, nos pede para não confiar em ninguém com mais de trinta, mas eles referem-se à pessoas, quando se trata de instituições é melhor revertermos essa lógica. As instituições depois dos trinta passam a ser mais confiáveis, tornam-se respeitadas.
Nessa semana quatro instituições da UFGD comemoraram os seus aniversários, acima dos trinta. O Curso de Geografia (30 anos), o Centro de Documentação Regional (30), o curso de Agronomia (35) e o curso de História (40 anos).
Professores pioneiros foram homenageados, os atuais e os alunos ouviram histórias do passado que se tornam inacreditáveis diante da realidade atual. Ao ouvirmos os depoimentos dos professores homenageados ficamos com a certeza de que Dourados era tratada como uma cidade de segunda categoria. A reitoria da então UEMT (depois UFMS) criou para nós apenas cursos de licenciatura curta, contratava professores somente para o ensino, quando a verdadeira Universidade está ancorada no tripé ensino, pesquisa e extensão.
Poucos eram os professores, paupérrima a biblioteca, as possibilidades para a capacitação docente eram remotas e poucos foram os professores pioneiros que conseguiram fazer carreira chegando ao doutorado. Como produzir pesquisa àquela época se o professor era contratado por 20 horas semanais e tinha que ministrar até 16 aulas? Um absurdo! Mas, de qualquer forma, apesar de todos os pesares, quando os mais jovens homenageiam os mais antigos é sinal de que reconhecem que a construção do conhecimento é trasngeracional e que, não obstante as circunstâncias da época restringirem a produção científica houve consciência política para o lançamento das estruturas para uma grande universidade, materializada hoje na UFGD.
O Centro de Documentação Regional, por exemplo, criado em 1983, reúne hoje um acervo monumental, quiçá o mais bem estruturado do Centro Oeste, capaz de oferecer documentos aos que se interessam pela nossa realidade. Vale a pena visitar as suas instalações.
O Curso de Geografia, criado em 1983, depois de acirrada luta com a reitoria em Campo Grande, hoje ministra o curso de licenciatura, de bacharelado, mestrado e doutorado.
O Curso de Agronomia, criado em 1978, depois de oposição ferrenha da reitoria de Campo Grande, hoje é uma Faculdade, com graduação em Agronomia, Zootecnica, Engenharia Agrícola, 3 programas de Mestrado e um de Doutorado.
O curso de História, que completa 40 anos, teve os seus vestibulares suspensos em 1978 e 1979 e quase deixou de funcionar em razão da ação da reitoria da então UEMT. Atualmente mantém a graduação, um programa de Mestrado e um de Doutorado.
Algumas comparações são interessantes. Por exemplo, Londrina é apenas dez dias mais antiga que Dourados, no entanto tem mais que o dobro de nossa população. Criada em 10 de dezembro de 1935, aproveitou-se da expansão cafeeira do Norte do Paraná e tornou-se uma cidade exemplar em muitos aspectos. Aliou circunstâncias favoráveis com boas administrações. A UNICAMP foi criada na mesma época da UEMT (hoje UFMS). Lá em Campinas, graças aos seus primeiros dirigentes, tornou-se uma das melhores do Brasil e da América Latina. Aqui a discriminação em relação a Dourados pela reitoria de Campo Grande e a visão estreita do primeiro reitor, impediu o nosso avanço, atrasou o nosso desenvolvimento. Deixando de compreender que as circunstâncias da época exigiam a capacitação de professores e que era necessário um planejamento estratégico de desenvolvimento regional, fez da Universidade um centro de formação de profissionais, não de pesquisadores.
Mas, enfim, ao que parece tudo o que acontece é para o bem. Não fora a discriminação que recebemos talvez não tivéssemos hoje a UFGD. E eu, particularmente, que fui o primeiro a defender a ideia de nos separarmos da reitoria de Campo Grande, quero dizer às forças vivas de Dourados que a UFGD é a nossa UNICAMP do Centro Oeste. Que os aventureiros, os inconformados, os conservadores e retrógrados, não ousem desviar esse rumo de nossa história.
Já não nos basta o exemplo da UEMS, criada no papel de uma Constituição, mas erigida na luta de seus professores, técnicos e alunos, que perdeu no atual governo a sua autonomia financeira e agora corre o risco real de ter a reitoria transferida para Campo Grande?