Não é nada fácil enxergar além da curva, parte de nós, seres humanos, não conseguimos enxergar mais do que um palmo à frente de nosso nariz. Quanto aos políticos, se enxergarem além do palmo são considerados bons. Somente enxergam além da curva os estadistas, um nível que poucos alcançaram. Não vejo no mundo atual estadistas, mas bons políticos sim, no entanto, desejo nesta crônica destacar três dirigentes mulheres que têm nervos de aço e visão muito ampla. Talvez não consigam ver além da curva, mas se aproximam disso.
Comecemos pela nossa presidente Dilma, que tem demonstrado uma firmeza incontestável, enfrentando a crise mundial de tal modo que para muitos brasileiros ela (a crise) nem existe. Dilma navega em mar turbulento, tendo que suportar, além da crise mencionada, uma oposição concentrada nos partidos de direita e, principalmente imiscuída na maior parte da mídia nacional. As alianças que dão sustentação ao seu governo são demasiadamente volúveis, haja vista a saída de Eduardo Campos e de seu PSB da base de sustentação. É provável que Eduardo Campos, agora com Marina Silva, tenha montado em um porco, como diria a minha avó. Imaginando que as manifestações de julho ameaçassem a (re)eleição de Dilma quis tirar proveito, especialmente por saber que Serra e Aécio não têm densidade eleitoral suficiente para enfrentar Dilma. Mas essa é outra história.
No âmbito internacional Dilma, para desespero da direita subserviente aos interesses norte-americanos, exerce o Soft Power (poder brando) em relação aos demais países da América e da África e ganha assim amigos e mercados. Marcante foi a sua atitude em relação aos Estados Unidos, exigindo explicações do presidente Obama sobre a hedionda espionagem realizada pelos nossos mui amigos. O cancelamento da visita que estava marcada àquele país, em um momento em que havia mútuo interesse no estreitamento dos laços comerciais foi atitude digna de quem reconhece o Brasil como país soberano e não mais quintal dos norte-americanos. A direita criticou como se somente existissem os Estados Unidos para nos relacionarmos. Ora, os Estados Unidos vivem uma monumental crise, apesar de Obama, e o Brasil, uma potência emergente, portanto, não tinha outra opção senão agir como tal.
Outra mulher de nervos de aço é a primeira ministra alemã, Angela Merkel. Os alemães já tiveram Margareth Tacher, a dama de ferro, mas ela, não obstante todo o seu poder, enveredou pelo neoliberalismo e colocou a Alemanha em situação difícil[1]. Mas, não obstante esse erro de rumo, os alemães consagraram outra mulher, essa mais voltada para um capitalismo no modelo keinesiano, onde o estado intervém para a economia não descarrilar. Então escolheram Merkel, (re)eleita três vezes, e ela, assim como Dilma, foi espionada pelos Estados Unidos e a sua reação não foi diferente. Como a primeira ministra alemã não é filiada ao PT, a sua reação, idêntica à da presidente Dilma, calou a nossa direita tupiniquim. Merkel não só censurou publicamente a ação dos EUA, como se uniu ao Brasil para exigir da ONU uma resolução que promova o direito à privacidade na Internet. Alemanha e Brasil esperam que as outras 34 nações espionadas pelos Estados Unidos deem o suporte necessário para que essa medida seja tomada com urgência.
Por fim, no Sul da América, abatida pela doença, quiçá por seus nervos serem apenas de ferro e não de aço, a presidente Cristina Kirchiner conseguiu a aprovação da “Ley de Medios”, inclusive com a declaração de sua constitucionalidade pela Suprema Corte. Significa dizer que a Lei extingue o monopólio da grande imprensa midiática no país hermano, o que deixou a Globo em polvorosa. A mídia monopolista entende que tudo o que os governos, seja na Argentina ou na Venezuela, fazem para democratizar a liberdade de imprensa, agindo contra os monopólios, sejam ações antidemocráticas. Não o são.
Não dá mais para entender que uma potência econômica como o Brasil, que está firme também no rumo da melhoria do Índice de Desenvolvimento Humano seja apenas o quintal dos Estados Unidos, não dá para perdoar facilmente que Alemanha, Inglaterra e França, três outras potências que sempre estiveram ao lado dos Estados Unidos sejam traídas pela espionagem dos gringos. Nesses termos é bom que os presidentes homens sigam o exemplo das presidentes mulheres.
[1] Esse parágrafo da crônica, publicada em “O Progresso” em 4/11/2013 e no facebook constitui-se em lamentável erro de atenção. Deveria ter sido escrito assim “ Os ingleses (e não os alemães), já tiveram Margareth Tacher, a dama de ferro, mas ela, não obstante todo o seu poder, enveredou pelo neoliberalismo e colocou a Inglaterra (e não a Alemanha) em situação difícil”.