Essa crônica é um excerto de artigo publicado na revista Premissas da UFGD e no site www.biasotto.com.br (re)lembrando os trinta anos sem Marçal.
25 de novembro de 1983, mais um índio assassinado em Mato Grosso do Sul, um líder entre todos os líderes indígenas, conhecido por Marçal de Souza ou Marçal Guarani, embora o seu nome de batismo, segundo o rito de sua tribo, fosse Tupã’I, que significa pequeno deus. Sua morte comoveu o mundo.. Jornais locais, nacionais e internacionais noticiaram o assassinato com grande destaque e mais de duzentas instituições de toda parte do planeta cobraram justiça. Centenas de atos públicos foram realizados, mas todo o clamor daqueles que reconhecem as injustiças praticadas contra os índios foram em vão. Ninguém foi punido, ninguém preso. Em um julgamento realizado em Ponta Porã, dez anos após a morte de Marçal o Tribunal do Juri inocentou os suspeitos. Muitos outros assassinatos sucederam-se, a exemplo dos caciques Veron em 2003, Nisio Gomes em 2011, enfim, 270 índios já foram assassinados em Mato Grosso do Sul.
A morte de Marçal foi a mais emblemática de todas elas, tanto pela sua estatura intelectual quanto pela sua convivência junto aos seus e os inúmeros pronunciamentos que fez em Universidades, Congressos Indígenas, na ONU e até para o papa João Paulo II em 1980, na cidade de Manaus, em nome e em defesa de todas as nações indígenas brasileiras. Por isso a sua história deve ser lembrada e servir como paradigma aos índios que, não obstante alguns avanços, ainda estão longe de serem compreendidos e de receberem tratamento digno.
Marçal nasceu em 1920, ficou órfão quando tinha oito anos e juntamente com o seu irmão Ivo, foi criado sob a proteção da Missão Caiuás, o que o transformou em pastor presbiteriano, militando nesse mister durante 30 anos, ao mesmo tempo em que exercia as atividades de enfermeiro, contratado pela FUNAI.
Possuidor de uma inteligência privilegiada e tendo recebido uma educação muito acima da dos padrões de seus irmãos índios, Marçal tornou-se uma liderança expressiva, constituindo-se em uma espécie de ponte, de elo de ligação, entre o seu povo e os não-índios, verdadeiro embaixador, não somente para representar a Missão Caiuás, mas também por acompanhar e conviver com cientistas interessados em estudar os Guarani, especialmente antropólogos da estatura de Egon Schaden e Darcy Ribeiro.
Marçal compreendeu como poucos o seu povo, soube avaliar as causas que levavam os Guarani à miserabilidade material e à degenerescência cultural. Compreendia exatamente porque muitos dos seus entregavam-se ao alcoolismo e ao desespero extremo do suicídio. Por isso lutou, mesmo sabendo dos riscos que corria. Enfrentou os problemas indígenas enquanto que muitos de seus irmãos sucumbiram, entregando-se ao vício ou à morte pelo suicídio. Verdade que os suicídios diminuíram, mas Marçal estremeceria no túmulo se soubesse que atualmente são as drogas químicas que consomem a vida de índios, traficadas por próprios índios que assimilaram alguns péssimos costumes da sociedade envolvente e exploram os seus semelhantes tirando-lhes inclusive as suas casinhas, das quais passam a cobrar aluguel.
Não é apenas a bala disparada que mata. O etnocídio não significa apenas e tão somente a eliminação física de uma determinada tribo, mas é também, e principalmente, a morte das crenças, da língua, enfim, da cultura de uma etnia. Aliás, muitos índios também não compreendem a importância de sua própria cultura por terem se alienado em virtude do contato com a sociedade não-índia, que massifica tudo e todos.
Compreendendo a situação Marçal tinha consciência de que o seu povo fora livre, alegre e forte, tinha a mata generosa para a caça e a coleta e os rios caudalosos e límpidos para a pesca, e que foi, ao longo do tempo, sendo encurralado, expulso de seus tekohás e aprisionado em reservas. Por outro lado, compreendia também a ilimitada ganância do latifundiário. Tinha absoluta convicção de que a luta era desigual, que o poderio do latifúndio era maior e que a lentidão e o descaso da Justiça para com a questão indígena àquela época eram absolutamente desfavoráveis ao seu povo. Por isso sonhou, lutou e conseguiu que os povos indígenas brasileiros se fortalecessem unindo-se. As cinco balas que lhe tiraram a vida universalizaram a sua luta.