Jânio da Silva Quadros teve uma carreira meteórica na política brasileira. Suplente
de vereador, assumiu o mandato em 1947, depois foi deputado estadual, prefeito,
governador de São Paulo, deputado federal pelo Paraná e presidente do Brasil a partir de 1961. As suas campanhas eleitorais eram histriônicas, jogava talco nas ombreiras
do paletó para parecer que tinha caspas, levava no bolso sanduíches de mortadela
para comer nos palanques, simulava desmaios, representava enfim a tragicomédia do
populismo mais exacerbado. Beber em palanques jamais, no entanto a sua fama de
beberrão coincidia com a realidade.
Sua habilidade no uso da língua portuguesa era notória e a colocação dos pronomes
chegava a surpreender. “Fi-lo porque qui-lo” teria dito certa vez e em outra afirmara que
“bebo porque é liquido, se fosse sólido comê-lo-ia”. Esse era Jânio, um político ambíguo
e contraditório a ponto de condecorar Che Guevara e em seguida reprimir a manifestação
estudantil em Recife por ocasião de uma conferência da própria mãe de Che.
Mas o seu populismo não se restringia às campanhas. Quando prefeito de São Paulo,
aplicava multas de trânsito se encontrava carros estacionados nas calçadas, desinfetou
a cadeira de prefeito ao assumir porque Fernando Henrique Cardoso, seu concorrente
àquela época, havia se sentado na cadeira para insinuar na campanha que já havia
ganho a eleição. Proibiu jogos de futebol às quartas-feiras e o uso de biquínis em praias.
Que fosse um histrião, que fosse populista, mas não renunciasse. Esse ato foi de uma irresponsabilidade monumental. Alegando não suportar as “forças terríveis” que se
impunham sobre ele renunciou, por acreditar que voltaria nos braços do povo e imporia
uma ditadura civil. Ao invés disso alargou o caminho para o golpe de 1964.
No dia da renúncia, 25 de agosto de 1961, Goulart, o vice-presidente, estava na
China e enquanto retornava (7 de setembro) deu tempo para que os seus adversários
aprovassem o parlamentarismo. Significa dizer que o poder decisório era tirado das
mãos do presidente para passar a ser exercido por um primeiro ministro (Tancredo
Neves). Jango suportou essa imposição do Congresso, mas conseguiu (re)estabelecer
democraticamente o presidencialismo graças a realização de um plebiscito, aprovado pelo
Congresso por pressão de uma greve geral dos trabalhadores em 1963.
Não é inoportuno lembrar que o parlamentarismo, de certa forma, foi o jeitinho brasileiro de impedir um golpe. Os militares não queriam Jango, planejavam prendê-lo quando desembarcasse. Foi então que Leonel Brizola, governador do Rio Grande do Sul, iniciou pela Rádio Guaíba, a Campanha da Legalidade. Várias rádios brasileiras e estrangeiras participaram dessa campanha. O governo federal mandou fechar três delas e a Guaíba, ameaçada, foi transferida para os porões do Palácio Piratini. A situação ficou dramática quando um radioamador interceptou uma mensagem de que a Forca Aérea e o Terceiro Exército bombardeariam o Palácio. Metralhadora em punho, Brizola fez aquele que talvez tenha sido o seu mais eloquente discurso em favor da legalidade, ou seja, pela posse de Jango. Esse pronunciamento do jovem líder político fez com que em menos de uma hora 50 mil gaúchos estivessem na frente do Piratini para esperar o comandante do Terceiro Exército.
O golpe militar foi adiado de 61 para 64. Restabelecido o presidencialismo, Goulart tentou implementar as “Reformas de Base”, um pacote de reformas estruturais nos setores
educacional, fiscal, político, bancário, urbano e, a mais indesejada pelos conservadores,
a reforma agrária. Sem contar com o apoio do Congresso e dos militares, que temiam que
fosse implantado o regime comunista no Brasil (o Mundo estava vivendo a Guerra Fria),
Jango foi para as ruas buscar o apoio popular para obter a sustentação de seu governo e
implantar as Reformas.
No dia 13 de marco de 1964, o comício de Jango na Central do Brasil, no Rio de Janeiro, reuniu o expressivo número de 150 mil pessoas. Esse monumental apoio popular, no entanto, não comoveu os militares, ao contrário, dezoito dias depois João Goulart foi
deposto e as Reformas de Base esquecidas. (Em www.biasotto.com.br reproduzi a carta
renúncia e os discursos de Brizola e Jango).