Ultradireitistas brasileiros articularam para hoje, 22 de março, uma (re)edição da Marcha da Família realizada em 19 de março de 1964. Eles desejam para o Brasil uma “intervenção militar constitucional”. Diz a convocação: "Direitistas que clamam por Intervenção Militar e Monarquistas serão todos bem vindos (...) pela Defesa da Vida, da Liberdade e da Democracia e todos juntos contra o Comunismo."
É próprio da democracia a livre manifestação de ideias, no entanto, o Brasil não vive hoje as circunstâncias históricas que provocaram aquela marcha, portanto, cabe aqui repetir Marx: “A história acontece como tragédia e se repete como farsa”. De fato, a marcha de 1964 redundou em tragédia, pois deu aos militares o respaldo popular para desferirem o golpe de 31 de março. Qualquer que seja, portanto, o resultado dessa marcha programada para hoje, será uma farsa.
A marcha de 1964, da família com Deus, pela Liberdade, organizada pelas forças conservadoras brasileiras, foi uma reação ao Comício de Jango na Central do Brasil. (Veja em www.biasotto.com.br). Nesse comício João Goulart prometeu iniciativas imediatas para as “Reformas de Base”. Contrariados, os opositores, ao mesmo tempo em que organizavam o golpe de estado, encontraram um meio de preparar os espíritos e conquistar o apoio do povo. Organizaram a Marcha da Família, com a colaboração dos governadores de São Paulo e Rio, Adhemar de Barros e Carlos Lacerda, respectivamente, do Presidente do Senado Auro Moura Andrade, deputados, empresariado, da mídia e das Igrejas, principalmente a Católica. Não sabemos se entrou dinheiro americano especificamente para esse evento, mas é certa a participação financeira dos Estados Unidos na preparação do golpe de 64. Lincoln Gordon, embaixador dos Estados Unidos no Brasil, pediu 12 milhões de dólares ao presidente dos EUA e Kennedy perguntou se não era muito (“No, that’s too much”), mas Gordon respondeu: “Não podemos perder o Brasil nesse momento”. Era o contexto da Guerra Fria e nós, o quintal norte-americano.
A Marcha da família, na verdade, foi a soma de várias marchas realizadas em capitais brasileiras, sendo a primeira em São Paulo, em 19/03/1964, com cerca de 300 mil participantes. As demais foram pós golpe, e a mais numerosa, chamada de Marcha da Vitória, com 500 mil pessoas, aconteceu no Rio de Janeiro no dia 2 de abril. A participação das mulheres no processo foi intenso. Leonor Mendes de Barros, esposa de Adhemar, reunia-se com as mulheres de empresários e estas com as mulheres dos funcionários de suas respectivas empresas, falando do “perigo comunista” e conclamando-as a participarem da Marcha com as suas famílias. Do púlpito, a maioria dos padres católicos também chamava os fiéis. E, a maioria do povo brasileiro, devido a massiva propaganda, acreditou na “Revolução”, e acreditou tanto, que logo após o golpe, foi chamada por Assis Chateaubriand e os seus Diários e Emissoras Associados, a dar “Ouro para o bem do Brasil”, um golpe sobre outro, pois ninguém sabe exatamente quanto foi arrecadado e para onde foi o dinheiro.
A campanha das forças conservadoras em relação ao “perigo comunista” foi tão intensa e marcante que até recentemente muitos brasileiros ainda acreditavam que os comunistas comiam criancinhas e faziam sabão de velhos. À força da campanha anticomunista juntou-se à força das armas. O exército brasileiro entrou em ação.
As quarteladas na história brasileira são comuns, inclusive a própria Proclamação da República, mas desde 1935, em virtude da “Intentona Comunista”, formou-se dentro de nosso exército o imaginário de que compete aos militares combater o comunismo. Em 1964, esse preceito foi levado ao extremo e, além de “salvar” o Brasil do “comunismo”, o exército resolveu também “salvar” o país da corrupção, dos desmandos, do subdesenvolvimento. Deu no que deu: 21 anos no poder, sem resolver os nossos problemas crônicos, mas castrando a democracia, impedindo, por via de consequência, a formação de novas lideranças.
É oportuno lembrar que a missão do Exército é: “Contribuir para a garantia da soberania nacional, dos poderes constitucionais, da lei e da ordem, salvaguardando os interesses nacionais, e cooperando com o desenvolvimento nacional e o bem-estar social. (http://www.eb.mil.br/missao-e-visao-de-futuro).