E ainda existem decrépitos ou ignorantes defensores da ditadura! Em janeiro de 1971 o deputado Rubens Paiva desapareceu para jamais ser encontrado. Março, do mesmo ano, um corpo é encontrado no fosso de um elevador, tendo passado por um vão de lajes com 20 cm de largura. Sem sapatos e com os óculos intatos, jazia ali um dos maiores educadores brasileiros: Anísio Teixeira. Em 1975 o jornalista, professor da USP Wlademir Herzog “enforcou-se” dependurando-se em uma grade da prisão. As suas pernas estavam escancaradas, pois se ficasse ereto não teria como se enforcar, dada a pequena altura da grade. Esses são três casos emblemáticos dentre os 600, de pessoas desaparecidas ou mortas, segundo estudo da Secretaria de Direitos Humanos realizado em 2012. As desculpas das autoridades da época para ocultar as torturas e assassinatos eram ridículas, mas ninguém ousava contestar, ao menos até a absurda explicação do suicídio de Herzog.
Tudo começou em 31 de março de 1964, quando o general Mourão, intempestivamente, às 3 horas da madrugada, pôs seus homens em marcha. Dias antes, 28 de março, ele havia se reunido com o general Odílio Denys e com o banqueiro, governador de Minas Gerais, Magalhães Pinto. Dessa reunião ficou decidido que a tomada do poder dar-se-ia em 4 de abril, no entanto Mourão antecipou-se, mesmo aconselhado por Castelo Branco para aguardar. Significa dizer que o movimento carecia de organização e o golpe acabou ocorrendo por adesão e também porque os legalistas, defensores de Jango, não tinham organizado absolutamente nada para a defesa do governo.
O Congresso, presidido por Áureo de Moura Andrade, declarou vaga a presidência, antes mesmo do presidente ter saído do pais. Jango evitou a guerra civil, apesar de Brizola ter defendido a resistência. De Brasília seguiu para o Rio, daí para Porto Alegre e em seguida para o exílio em Montevidéu, depois Argentina.
João Goulart, Carlos Lacerda, Juscelino, a esquerda de forma geral, os civis apoiadores do golpe e os próprios militares entendiam que a intervenção seria cirúrgica e que as eleições seriam (re)estabelecidas a partir de 1965. Ledo engano, vitorioso, o golpe, os militares com apoio de políticos de ultradireita, permaneceram 21 anos no poder.
O coronel Paulo Malhães, em depoimento à Comissão da Verdade no dia 22 deste mês, fez a estarrecedora confissão de que os corpos dos “adversários” tinham as suas barrigas arrancadas, as arcadas dentárias e os dedos cortados, e esses pedaços eram ensacados juntamente com pedras para que não flutuassem e jogados aos rios. “"Jamais se enterra um cara que você matou. Se matar um cara, não enterro. Há outra solução para mandar ele embora. Se jogar no rio, por exemplo, corre".
Mas não foram só as mortes e os desaparecimentos que marcaram o período, torturas físicas e morais são inumeráveis, quase duas centenas de militares foram transferidos para a reserva, rádios e jornais censurados e inclusive fechados, como a tradicional Rádio Mayrink Veiga. Por toda parte “defensores da Revolução Redentora” aproveitavam-se para acusar os seus adversários de comunistas. Era o suficiente para que trabalhadores sindicalizados, camponeses e jornalistas fossem presos, políticos cassados, professores demitidos.
Existiam grupos de resistência, é inegável, mas eles estavam longe de ameaçar o país com a implantação do comunismo. O Brasil vivia um dilema novo. O grande êxodo rural dos anos 50 e 60 provocou a necessidade de uma nova ordem. A fase capitalista que vivíamos àquela época exigia mudanças, aliás, de forma semelhante às novas mudanças exigidas pela sociedade atual. Claro que não há a mínima possibilidade de novo golpe militar, mas há necessidade de mudanças, impedidas mais uma vez pelos conservadores.
Não se pode esquecer da atuação dos Estados Unidos. Da mesma forma que recentemente houve o chamado Consenso de Washington que impunha o Neoliberalismo, no início dos anos 60 havia a “Doutrina da Segurança Nacional”, que culminou com a implantação de ditaduras militares em grande parte do continente, com barbáries igualáveis às brasileiras.´
Impossível resumir em crônica o que se escreveu em mais de cem livros sobre esse obscuro período. Disponibilizei no site www.biasotto.com.br alguns artigos atuais sobre o tema.