Eric Arthur Blair escreveu em 1948 um livro cujo título é simplesmente a inversão dos dois últimos números, ou seja 1984. Sucesso no mundo todo o autor, cujo pseudônimo era George Orwel, denunciava de forma brilhante o totalitarismo. O Big Brother, cuja criatividade holandesa mais tarde transformou em programa televisivo, tinha o poder de vigiar cada passo dos cidadãos graças às câmeras instaladas por toda a parte. Essa conhecida história transformou-se em realidade. Há pouco a ONG New York Civil Liberties Union protestava contra a existência de 40,76 câmeras instaladas por quilômetro quadrado em Manhattan. E isso não é privilégio ou desventura apenas dos norte-americanos, pelos rincões afora bancos, escritórios, lojas, ruas, por todo lado há câmeras que nos vigiam e em alguns locais colocam-se até mesmo cartazes pedindo-nos para sorrir por estarmos sendo filmados. Maneira elegante de nos intimidar.
Isso é pouco, no mundo atual não é apenas o poderoso governo autoritário, o Big Brother que nos vigia, nós mesmos entregamos as nossas próprias intimidades pelos autorretratos (selfies), postos em redes sociais. Namorados filmam-se e expõem-se na prática daquilo que os nossos avós limitavam-se a fazer somente debaixo dos lençóis, não se permitindo ao menos a curtição de seus próprios corpos. E, pior, ou melhor, já não sei, expõe em sites especializados a performance do parceiro(a).
Mas eis que quando parece não haver nada mais que nos impressione, surgem novidades. Acabo de ler uma interessante obra de Charles Duhigg, “O Poder do Hábito”, nele encontro uma história que transmito de memória: um pai chega furioso a uma grande loja de departamentos e procura um gerente para reclamar dos cupons que estavam chegando em sua casa, endereçados à sua filha, ainda uma colegial, oferecendo-lhe roupas apropriadas para gestantes. O gerente se desculpa e o pai, mesmo indignado, sai sem provocar maiores consequências. Dias mais tarde, o gerente, para não perder o cliente, liga-lhe para desculpar-se novamente. Ah, diz o pai, não tem de que se desculpar, minha filha está grávida e eu ainda não sabia.
A loja sabia da gravides da moça antes do próprio pai. E tudo graças a um departamento que armazena todos os dados de seus clientes em computadores e possui analistas extremamente bem pagos para criar programas que identifiquem hábitos e detectem mudanças nos produtos comprados pelas pessoas cadastradas em suas lojas espalhadas pelo mundo todo. A partir desses dados encaminham cupons que, embora pareçam ser de propaganda massiva, são personalizados, de acordo com as necessidades do cliente.
O autor do livro, cliente dessa loja, passou a receber cupons porque a loja sabia que a sua esposa esperava um filho. Como já pesquisava sobre o assunto foi entrevistar o chefe do departamento que filtrava os dados dos clientes, Andrew Pole. Eis a resposta: “Vamos lhe mandar cupons para coisas que você quer, antes que você sequer saiba que quer essas coisas”. Dá para entender, o escritor teria o seu primeiro filho, a loja sabia muito melhor que ele as necessidades de um bebê, depois de uma criança, do(a) adolescente, da grávida, dos idosos. E tudo isso sem contar com as câmeras instaladas em cada canto da loja, apenas com o uso de programas de computador.
Os aposentados somos bombardeados com telefonemas de dezenas de bancos, oferecendo-nos juros mais módicos dos oferecidos pelo nosso banco. Como sabem de nossa vida, de nossos empréstimos, das taxas de juros que pagamos? Por seu lado, se alguém for pleitear um empréstimo bancário, pode estar certo de que o gerente já sabe de antemão se o cliente tem empréstimo em algum outro banco. E a nosso sigilo bancário?
Quer mais? Hoje existem programas que definem com precisão quase absoluta se a música analisada fará sucesso antes mesmo de ser lançada no mercado,
Agora, haja dinheiro para realizar essas pesquisas, que deixaram para trás as tradicionais pesquisas quantitativas e já ameaçam as qualitativas, essas em que o pesquisador reúne pessoas de vários segmentos para saber o que a sociedade pensa e deseja.
É paradoxal, mas quanto mais nos libertamos de conceitos e preconceitos antigos, mais liberdade perdemos sobre os nossos próprios gostos e saberes nesse admirável mundo novo.