“A taça do Mundo é Nossa”, música composta em comemoração à vitória brasileira em 1958, na Suécia, por Lauro Müller, Maugeri Sobrinho e Victor Dagô, foi lembrada na quinta-feira passada por muitos brasileiros que tiveram o privilégio de ouvir pelas ondas de rádio as transmissões vibrantes como as de Jorge Cury, Oswaldo Moreira, Pedro Luiz e Edson Leite. Fiori Giglioti, que narrou dez Copas do Mundo, se já não fosse apenas saudosa lembrança, teria dito com sentimento profundo o seu mais famoso bordão: “abrem-se as cortinas e começa o espetáculo”. Particularmente não tive dúvidas em cantarolar a famosa música quando o juiz assinalou um pênalti a nosso favor. Bem possível que neste ano a Copa volte a ser nossa, pela sexta vez. Provável que voltaremos a cantar essa velha música, mudando evidentemente o refrão que diz que “o brasileiro lá no estrangeiro/ Mostrou o futebol como é que é / Ganhou a taça do mundo/ Sambando com a bola no pé”. Haveremos de mostrar que dentro de nosso país, ao contrário da Copa de 1950, também somos bons de bola e que o “nosso esquadrão de ouro” colabora grandemente para que os brasileiros tenhamos momentos de alegria coletiva, de fruição, de orgulho, afastando de nós o complexo de vira-latas.
Mas, e sempre haverá um mas (um porém, contudo, todavia) no mundo contemporâneo, a vida não pode ser feita somente de pão e circo, futebol e cachaça. Não dá para tomar ao pé da letra o humor e irreverência de Ascenso Ferreira que chegou à máxima de que “Hora de comer, comer! / Hora de dormir, dormir! / Hora de vadiar, vadiar! / Hora de trabalhar? Pernas pro ar que ninguém é de ferro”. É preciso estabelecermos limites, temos que ter consciência de que necessitamos do trabalho e do repouso, da labuta e do laser, assim como a noite precisa do dia e o dia da noite.
O jogo da seleção brasileira com a da Croácia foi um espetáculo, a abertura oficial da Copa poderia, no entanto, ter sido melhor, contratar uma sueca para reger a coreografia não foi uma das melhores ideias. Poderíamos ter tomado emprestado de nosso carnaval pessoas muito mais capazes para dar à abertura uma cara de Brasil potência, de país misto de trabalho e alegria. Nem o fuleco apareceu, mas pior ainda foi ter passado praticamente despercebido aquilo que deveria ter sido explorado como o lado oposto ao circo, ou seja, a capacidade brasileira de construir o que se convencionou chamar de exoesqueleto. Quer dizer, deveria ser mostrado ao mundo que o brasileiro além da ginga, do futebol e da cachaça, trabalha, estuda e já se destaca internacionalmente pelas suas descobertas científicas.
O exoesqueleto possibilitou a Juliano Pinto, de 29 anos, cidadão com lesão medular, movimentar as pernas para o pontapé inicial, usando a própria mente para comandar uma prótese robótica. Foi rápido, pareceu pouco, mas foi gol de placa. Por que não realçar uma maravilha científica dessa natureza? Teriam ainda as nossas redes de televisão o complexo de vira-latas? Como é possível dar tão pouca atenção a um dos inventos mais extraordinários dos últimos tempos e que, com mais alguns anos de pesquisas, poderá tirar da imobilidade milhares de paraplégicos?
O neurologista brasileiro Miguel Necoletis, durante 17 meses comandou uma equipe de 150 pessoas de cinco países diferentes para criar o exoesqueleto e fazer sorrir e até chorar de alegria os oito candidatos que o experimentaram. A grande novidade desse novo equipamento em relação aos já existentes é que nestes os poucos movimentos que eles possibilitam são produzidos por impulsos elétricos enquanto que no exoesqueleto os movimentos são produzidos por ondas neurais, ou seja, o cérebro é quem comanda o robô. Quarenta segundos de exposição na televisão foi pouco.
Por outro lado, a cada dia que passa estou convencido de que a razão não tem uma única face. Têm razão os que se alegram com o futebol, mas como tirar a razão daqueles que vêm no futebol uma espécie de ópio do povo? Particularmente, acredito que o futebol é bom para o corpo de quem o pratica e bom também para o deleite de quem o assiste, e o que suscita as manifestações contrárias à Copa não é o futebol em si, mas aquilo que ele carrega de podridão consigo, ou seja, a corrupção.