As crianças passam a se interessar pelo futebol entre os 4 e 5 anos. Claro que não entendem as regras, mas ao ver os adultos torcendo acabam sendo influenciadas a torcer pelo time do pai, às vezes dos tios, de amigos ou de craques como Neymar. Nessa idade ainda há muita confusão na cabeça das crianças e o mais preocupante é que elas preferem o desenho animado ao futebol. O time preferido pouco importa, mas eis a questão: até os cinco anos a criança está formando a sua personalidade e o meio no qual ela vive com certeza vai influenciá-la.
Antigamente o controle dos pais na formação das crianças era infinitamente maior. Não havia televisão e os gibis traziam inocentes histórias a exemplo do Pato Donald e Zé Carioca. Depois veio a TV e com ela as histórias ganharam animação e com o tempo foram se transformando, ora com efeitos educativos altamente positivos, ora se tornando mais violentas e aterrorizantes. E as crianças, de olhos vidrados, ouvidos abertos, vão interiorizando as mensagens como uma esponja gigante absorvendo água.
Não bastassem as emissoras de televisão, com 3 anos muitas crianças já têm o seu tablete e aos 5 já são capazes de ensinar os avós a entrar em páginas da Internet.
As ditaduras não cabem mais nas estruturas sociais contemporâneas, sejam elas de direita, de esquerda ou mesmo as de maridos machistas. A ditadura agora é das crianças, elas se transformaram nas novas mandatárias da nação. Isso porque elas são filhas ou netas de gerações que romperam com todo o tipo de preconceitos, que procuraram a liberdade para as suas ideias e para os seus próprios corpos. E agora? Se nascem livres, onde chegarão? Pais e professores já não sabem muito bem como fazer para estabelecer limites. Deputados e senadores preocupam-se, criaram até mesmo a Lei da Palmada, que na verdade não impede os corretivos aplicados com moderação, como muitos pensam. A Lei apenas procura proteger as crianças de maus tratos, de torturas aplicadas por pais que não sabem lidar com essa nova geração.
Todos procuram caminhos. Na Alemanha, a Universidade de Türbigen, criou um programa que foi seguido pela Itália, Suíça, Áustria, Noruega e Bélgica, denominado “Universidade das Crianças”. Pelo programa as crianças do ensino fundamental curtem as suas férias frequentando os anfiteatros das universidades, espremendo doutores livre docentes, com perguntas dificílimas. No livro “Universidade das Crianças”, de Ulrich JanBen e Ulla Steuernagel, encontram-se algumas delas: Por que as pessoas morrem? Por que rimos das piadas? Por que existem ricos e pobres? Por que os dinossauros foram extintos? Por que a escola é chata?
É fácil? As crianças querem esclarecer essas e outras centenas de dúvidas que pais e professores já não conseguem. E quando não se tem mais argumentos é que surgem os tapas e chineladas.
A solução? Ninguém tem uma resposta pronta e acabada. Antigamente parecia mais fácil, bastava um olhar dos pais para as crianças chisparem da sala de visitas, e se um olhar ou assobio não resolvessem, as surras eram inevitáveis. Pelo menos hoje sabemos que se surras adiantassem as cadeias não estariam superlotadas. Então, precisamos procurar algumas soluções. Em primeiro lugar é preciso dedicar amor às crianças, porque o amor constrói. É preciso contar-lhes histórias, acompanhar o desempenho delas atualizando-se de modo que os filhos não temam os pais, mas os respeite. É bem provável que a maioria dos filhos, hoje pequenos, superem os pais em conhecimentos, mas isso somente deve acontecer quando eles já tiverem sabedoria para entender com naturalidade essa superação.
O mais difícil no entanto parece ser o estabelecimento de limites. Como formar princípios? Como contribuir para com o caráter das crianças da atualidade? Como fazê-las distinguir entre o certo e o errado, o permitido e o proibido? Bem, primeiro os pais precisam definir esses conceitos para eles próprios, depois então estabelece-los para os filhos. É provável que uma família que tem saladas à mesa induza automaticamente às crianças a comerem saladas.
Grande é a responsabilidade da família, mas não menor é a do Estado que precisa oferecer às crianças das camadas menos favorecidas condições educacionais que lhes permita igualdade de condições em relação aos mais abastados.