Ricardo Kotscho disse algo impecável sobre a Copa: “Faz duas semanas, deixei um país em guerra, afundado nas mais apocalípticas previsões, e desembarquei agora noutro, na volta, bem diferente, sem ter saído do Brasil”. Realmente os brasileiros estávamos preocupados, cheguei a escrever uma crônica dizendo que essa seria a Copa do Medo, visto que uma boa parte da mídia nacional passou ao mundo uma imagem altamente negativa de nosso país. Muitos inclusive, na tentativa de desgastar o governo Dilma, acabaram esculachando com o Brasil. Felizmente, até o momento em que escrevo essa crônica o apocalipse não aconteceu. Os estrangeiros que nos visitaram não foram prejudicados no quesito mobilidade urbana, foram recebidos com a hospitalidade genuinamente brasileira e levam dessa Copa uma boa impressão. Certo é que houve uma cotovelada aqui, uma mordidinha acolá, uma briga entre torcidas alhures, mas sem maiores consequências e previsíveis em qualquer lugar do mundo onde haja uma disputa tão acirrada.
Para as jornalistas Joana Queiroz e Rosiene Carvalho, a Copa em Manaus foi uma verdadeira aula de hospitalidade nas ruas. Para elas essa foi a maior conquista do Mundial. Os estrangeiros não somente ficaram surpresos com a hospitalidade, mas também com as belezas amazônicas.
A jornalista Paula Cesarino Costa disse que a cidade maravilhosa estava acostumada com turistas europeus e não com latino-americanos, portanto, ela acredita que “um dos legados dessa Copa terá sido a aproximação do Brasil com seu próprio continente” E conclui: “Que seja duradoura”.
Mas não foram apenas Rio e Manaus que tiveram a oportunidade de mostrar o tanto de bom que temos. São Paulo tinha na Fórmula 1 a sua maior receita com turismo (250 milhões). Com a Copa, a previsão é de que atinja 750 milhões. Porto Alegre teve a oportunidade de conviver com cerca de 100 mil argentinos. Cuiabá recebeu cerca de 30 mil chilenos. Colombianos não foram em menor número. Enfim, as doze cidades sede tiveram uma oportunidade ímpar, inédita, de acolher milhares de estrangeiros e, com o que mostraram, abrir as portas do Brasil para o Mundo.
Estamos em festa, e tanto maior será a nossa alegria quanto mais próximo a nossa seleção chegar ao hexacampeonato. Acredito em um final feliz: a nossa Copa deverá ser lembrada pela organização elogiável, pela multiplicidade de jogadas encantadoras, com a quantidade recorde de gols, mas existem outras coisas a serem vistas. Um jornalista (não consigo recuperar o nome) escreveu que a sua imagem da Copa foi aquela em que o jogador australiano Mark Bresciano amarrou o tênis de uma criança com deficiência. Com certeza foi um ato de solidariedade digno de aplausos, tanto quanto mereceu também aplausos o nosso craque Neymar na África ao pegar no colo uma criança também deficiente.
Outra cena marcante foi a protagonizada pelos alemães ao recolherem os copos plásticos das areias da praia de Copacabana onde se realizou a festa da Fifa (FIFA Fan Fest). E que dizer dos japoneses, recolhendo em sacos plásticos o lixo dos estádios sem se importarem se tinham sido eles próprios quem os produzira?
Bem, muitos desses turistas residem em Cidades Educadoras, muitos trazem consigo uma cultura milenar e com toda a certeza cada um de nós deve ter visto nesta Copa das Copas algo que nos tenha feito refletir sobre as nossas próprias ações. Cada um de nós haverá de gravar na memória algo que nos tenha impressionado: um gol, um gesto, uma cena. E eu, um otimista que espera ver o nosso capitão levantar a Taça, haverei de gravar esse ato em minha memória, mas com toda a certeza, ao menos até agora, a cena mais bela, mais comovente que enxerguei foi quando a seleção japonesa, derrotada por 4 a 1 pela Colômbia, perfilou-se para a sua torcida, ficou durante alguns segundos imóvel, olhando para os torcedores e, em seguida, todos os jogadores inclinaram a cabeça fazendo uma reverência. Provavelmente tenham querido dizer que se esforçaram, mas não puderam vencer. Para mim seria o maior aprendizado se corintianos, são-paulinos, gremistas, palmeirenses, torcedores de todos os nossos times tivessem comportamento idêntico, ao invés de picharem, baterem, quebrarem. Vivas aos exemplos da Copa, inclusive aqueles dados fora do campo.