Mesmo para os historiadores que conhecem vários processos de dominação do homem pelo homem, o livro de Solomon Northup, “12 anos de escravidão”, transformado também em filme, não deixa de impressionar. A escravidão é quase tão antiga quanto o próprio homem, mas se organiza como sistema na Idade Antiga, atingindo o seu ápice com o escravagismo romano que, em última análise, representava a sustentação do Império que só ruiu a partir da Pax Romana. Veio então a Idade Média e com ela a implantação de um novo modelo de exploração humana, a servidão. Não obstante a servidão tenha sido degradante, ela foi, digamos, “mais humana” que a escravidão, pois o servo pertencia à terra onde morava e os senhores não podiam vende-los. Viviam com as suas famílias, se isso possa ser um consolo. Após as Grandes Descobertas, com a desculpa de colonização das terras conquistadas, adveio a escravidão negra e, em menor escala a indígena.
Por estarem em suas próprias terras os índios foram presas mais difíceis de serem submetidos, embora tanto no Brasil quanto nos Estados Unidos, se tenha tentado escraviza-los promovendo guerras genocidas, principalmente nos EEUU onde o general Philip Sheridan chegou a afirmar que “índio bom era índio morto”. Já os Negros, tirados de seu habitat, separados de suas famílias, não tiveram (salvo alguns quilombos) possibilidades de escaparem cedo das mãos de duas figuras execráveis, o traficante e o senhor que os comprava, além evidentemente do sistema engendrado pelos governantes que davam suporte a essa prática infame.
O leitor de “12 anos de escravidão” toma conhecimento de grande parte da dor sentida pelos Negros e provavelmente compreenda porque as gerações atuais de locais onde prevaleceu a escravidão têm uma dívida enorme a pagar, tanto para a etnia africana quanto para a indígena. Daí a necessidade das cotas. Quem não for capaz de entender essa política social provavelmente seria um bom feitor de escravos.
Northup, vivia no Norte dos Estados Unidos e foi ludibriado por traficantes que o venderam para um estado escravocrata do Sul. Morreu dois anos depois de ter sido iniciada a Guerra de Secessão, luta fraticida que culminou com a libertação dos escravos, coisa que o autor do livro não viveu para testemunhar. E o atento leitor já percebeu nessas poucas linhas três exemplos nada dignificantes para os Estados Unidos: o genocídio indígena, a cruel escravização dos Negros e a Guerra Civil.
Claro que ressaltar os defeitos não significa ignorar os méritos, destacando-se como tal a Carta dos Direitos do Cidadão (Bill of Rights), que serviu de inspiração a dezenas de países pelo mundo afora, principalmente no restante das Américas. “A César o que é de César”. Mas a Carta dos Direitos não evitou a Quebra da Bolsa de 1929, que levou o mundo a uma das maiores, senão a maior, crise do capitalismo. Não evitou as intervenções militares externas (Vietnam e Iraque), nem a chamada “Doutrina de Segurança Nacional”, que inspirou e acalentou as ditaduras militares na América. Muito menos evitou o “Consenso de Washington” que fomentou o neoliberalismo traduzido em arrocho para os trabalhadores, nas privatizações para a transformação do estado em organismo irrelevante para as economias nacionais (o estado mínimo). Enfim, quer me parecer que o que é bom para os Estados Unidos não é necessariamente bom para o Brasil, aliás o que é bom para os EEUU na realidade somente é bom para a sua burguesia e não para o povo cuja situação subalterna agravou-se com a crise do capitalismo que atingiu boa parte do mundo a partir de 2008 e que se arrasta até hoje.
Em suma, o anseio de liberdade dos escravos norte-americanos e os ideais da Carta dos Direitos, não se traduzem na prática. É verdade que o presidente Barak Obama tem procurado alterar a situação e não à toa disse que Lula era “o cara”, pois a sua intenção era a de estabelecer em seu país políticas públicas que beneficiassem mais aos menos favorecidos. Mas muitas barreiras o impedem, portanto aos buscarmos inspiração para o nosso desenvolvimento, além de nossa própria criatividade, teríamos outros melhores exemplos para seguir. Suécia, Suíça, Dinamarca, Noruega, Holanda, são países nos quais deveríamos nos espelhar para alcançarmos a qualidade de vida lá desfrutada.