Mesmo sendo a arte de governar, a política pode ser compreendida também como a arte do imponderável. Ora, se a história, uma ciência, tem elevadíssimo grau de imprevisibilidade, porque a política haveria de ser exata?
Tomemos exemplos recentes. A união de Tancredo Neves com José Sarney era praticamente impossível, mas aconteceu no final da ditadura militar. Tancredo era tido como conciliador do país, mas quem assumiu foi Sarney e, não obstante a inflação de 80% ao mês, conseguiu terminar o seu mandato sem que houvesse retrocesso na (re)democratização. Collor (a Globo, na verdade) venceu Lula em 1989, mas impedido pelo Congresso, foi afastado do poder e quem concluiu o seu mandato foi o vice Itamar Franco que instituiu o Plano Real, oferecendo com ele a oportunidade de seu ministro FHC tornar-se presidente da República
Depois de oito anos de mandato de FHC, o mundo iria acabar. O empresário Mário Amato diagnosticara que 800 mil empresários deixariam o Brasil, o caos seria implantado caso Lula vencesse. Lula ganhou, o caos não se verificou, ao contrário, o Brasil deixou de ser dependente do FMI, acertou as suas finanças e inclusive conseguiu transformar a grande onda, a crise internacional de 2008, em ondas calmas, em uma marolinha, no dizer do próprio Lula.
Tão bem avaliado saiu Lula do governo, com mais de 80% da população julgando sua gestão altamente positiva, que ele conseguiu eleger a sua sucessora, a presidente Dilma, que agora em 2014 postula a (re)eleição numa disputa que incluía Aécio Neves e Eduardo Campos.
Eis que quando Aécio começava uma aterrisagem em sua campanha devido à contratação de 78 mil servidores irregularmente em seu governo em Minas e, principalmente, pela construção também irregular de aeroporto em propriedade de um familiar, um trágico acidente aéreo ceifa a vida de Eduardo Campos, o candidato que teoricamente herdaria votos de Aécio.
A morte é a nossa única certeza, ela é temida, indesejada, mas necessária. Que seria da humanidade se não houvesse a morte? Mas ela, a Caetana, como é chamada no Norte, é absolutamente desprovida de lógica. Tem gente que vive demais, vive muito, sem que tenha um projeto maior do que o da própria sobrevivência. Tem gente que vive muito pouco, alguns sem mesmo ter consciência de ter nascido, outros com projetos, com sonhos que deveriam alimentar a sua existência. Foi o caso de Eduardo Campos, neto de Miguel Arraes, mas não necessariamente herdeiro das crenças do avô. Arraes foi o homem das Ligas Camponesas, preso e perseguido pela ditadura, Eduardo seguiu no princípio de sua carreira uma tendência de esquerda moderada, para no final de sua vida assumir uma postura mais voltada para a direita, embora o seu partido receba o nome de socialista (PSB).
É sabido que a vice de Eduardo Campos, Marina Silva, após tentar sem sucesso criar um novo partido (Rede Sustentabilidade), filiou-se ao PSB, na tentativa de gerar uma terceira via para o governo brasileiro, uma vez que as disputas presidenciais nos últimos 20 anos estão centradas na disputa PT e PSDB. Com a morte prematura de Eduardo Campos, ao PSB sobressaem duas opções: fazer de Marina a candidata ou chamar para a cabeça de chapa o presidente do PPS, Roberto Freire. Mas Elio Gaspari, quem diria, em matéria de quarta-feira passada, dia do trágico falecimento de Campos, sugeriu sutilmente que para derrotar o PT Marina deveria se aliar a Aécio Neves.
É impressionante a falta de sensibilidade humana por parte da direita brasileira, especialmente do PIG (Partido da Imprensa Golpista) em relação à morte do candidato. Não se dá importância à dor dos familiares, não se reverencia a história do morto, mas ao contrário, buscam no infortúnio uma maneira de derrotar o PT. Claro que Marina pode vir ser candidata, assim como parte do PSB pode aliar-se a Dilma. A comoção popular dará novos rumos à eleição presidencial, ou se dissipará rapidamente? Dilma, que teria vitória já no primeiro turno, pode ter que enfrentar o segundo, não com Aécio, mas com Marina?
Tudo é possível nesses tempos de poucas certezas e rápidas transformações. O inconcebível é a intolerância, a ponto de a direita brava, ter desejado a morte de Dilma no lugar de Eduardo. Mal sabem que a morte é um ente apolítico solitário, mas com poder absoluto sobre a vida.