Marina e Aécio defendem o fim da (re)eleição, embora o tucano seja menos efusivo. Dilma aprova a (re)eleição. Marina e Aécio defendem uma reforma política, Dilma também, embora diferenciada. Aécio e Marina defendem a autonomia do Banco Central, Dilma a manutenção dos padrões atuais. Marina e Aécio defendem redução nas metas de inflação. Dilma entende que a redução em torno de 4% ao ano somente será alcançada em 2018.
São apenas duas as propostas de gestão, uma defendendo o estado mínimo, outra a continuidade do estado de bem estar social.
Sobre a inflação é claro que todos gostaríamos que a meta fosse reduzida, mas a consequência de uma redução imediata e radical gera o desemprego. Quanto maior a procura e menor a oferta maior o preço. Ora, estando o Brasil vivendo um momento de baixo índice de desemprego é evidente que haja um aquecimento do consumo, por via de consequência uma tendência de aumento de preços, gerando inflação. Qual a escolha, vivermos o pleno emprego com inflação de 6% ao ano, ou o desemprego, como na Europa, que já atinge 24% embora a inflação seja menor?
Em relação a autonomia do Banco Central deve-se considerar que tanto Marina quanto Aécio têm como chefes de suas equipes econômicas respectivamente Eduardo Giannetti e Armínio Fraga. Duas declarações recentes refletem as suas intenções; Giannetti diz que “não cabe ao estado substituir o mercado” e Armínio diz que é necessário “mobilizar o capital privado para a infraestrutura”. Isso significa aplicar as teorias de Adam Smith, renovadas pelo neoliberalismo, implantadas no Brasil por FHC e que teve como consequências a “privataria”, o arrocho salarial, o desemprego e o sucateamento dos órgãos públicos, inclusive das Universidades. Ora, o Banco Central tem autonomia operacional, mas se o governo abrir mão da indicação de seus dirigentes, perderá o controle sobre o meio circulante, taxas de juros e mercado cambial, o que pode levar a bolhas de consumo e sobrevalorização do Real, tendo como consequência a desindustrialização brasileira e o retorno à dependência externa. Nesses termos, Marina, agora apoiada pelos banqueiros (leia-se especialmente Itaú) e Aécio, representam uma volta ao passado, quer dizer, uma volta aos tempos de FHC para, a partir de então, (re)começarem tudo de novo, desmontando o que foi feito por Lula e Dilma.
Como Dilma está seguindo os rumos traçados pelo governo Lula, obviamente quer a continuidade do modelo. Nada que se pareça com a implantação do socialismo, como insinua a direita brava, mas simplesmente um modelo surgido pós crise de 1929, teorizado por Keynes e que apregoa um estado de bem estar social, ou seja, uma participação mais efetiva do Estado na economia e na distribuição da renda, via políticas sociais. Então, para Dilma, não basta incentivar a iniciativa privada a investir em infraestrutura, é necessário que o estado participe ativamente, principalmente por intermédio do BNDES para obras de hidrelétricas, de saneamento básico, de ferrovias e portos, enfim de ferramentas que beneficiem a indústria, a agricultura e pecuária, ao segmento de prestação de serviços e por consequência o comércio.
Quanto a reforma política é a mais urgente. O povo brasileiro manifestou isso em julho de 2013, depois acalmou-se, provavelmente aguardando que o plebiscito a ser realizado entre 1 e 7 de setembro seja suficiente para demonstrar ao Congresso Nacional que a vontade soberana do povo não pode ser tolhida. Todos os três principais candidatos estão defendendo essa reforma, mas quem tem autoridade para fazê-la ou autorizar um plesbicito oficial é o Congresso. O próximo presidente a ser eleito, tendo maioria no Congresso poderá ter papel importante na definição dos rumos da reforma. É líquido e certo que o modelo de escolha e de ação dos políticos está ultrapassado, mas como ainda não se descobriu uma maneira de se organizar a sociedade sem a participação política, precisamos aprimorá-la. Nesse sentido uma constituinte eleita exclusivamente para essa missão parece-me o ideal.
Prova de que há apenas duas propostas está na fala de FHC ao declarar que para substituir o PT qualquer um serve. Claro, pois esse qualquer um retornaria à sua maneira de governar, aliás já internacionalmente superada.