A geada que cobria de branco a pastagem ia trincando sob os seus pés descalços impulsionando-o a correr ainda mais depressa a tocar as vacas para o curral onde seriam ordenhadas. Era ainda um meninote, saudável e esperto que pedia ao avô um canivetinho de presente, o que nunca lhe foi dado, mas que o marcou por toda a vida como testemunho de que naquela enorme família italiana os filhos e netos tinham apenas o direito ao trabalho. O patriarca não só dividia as tarefas para os colonos como também para os familiares que ganhavam um teto, a comida e roupa comprada ao final de cada safra de café.
Na enorme fazenda milhares de pés de cafés cobriam-se de branco para em seguida frutificar e transformar-se em ouro preto. As tropas de burros eram bem tratadas para à época da colheita transportar a safra em carroções até as tulhas e daí para os armazéns nas cidades. Vacas e porcos eram para o gasto, que não era pouco. Havia duas colônias, muitos trabalhadores e crianças para todos os lados. Certo ano o dono do armazém negou ter recebido o café daquela fazenda. Não havia recibos, era palavra contra palavra. Talvez por isso a fazenda foi vendida e cada filho comprou o seu sítio. Mas, da mesma forma que o nono velho tinha uma dezena de filhos, esses não deixaram por menos, tanto que aquele meninote teve dezessete irmãos, dos quais apenas nove sobreviveram, tão alarmante era a taxa de mortalidade infantil daquela época.
Pouco antes dessa divisão, ainda morando na fazenda do nono, o moço conseguiu comprar um burro. A sorte pareceu sorrir-lhe: um cavaleiro montado em fogoso cavalo parou-o na estrada e propôs uma troca. Cada qual, sabendo dos defeitos de suas montarias, ficou feliz por se desfazer delas. Do burro não sei a história, mas o cavalo era redomão e, pela cor arrozada, chamava-se Rosilho. Bufava ao ser arreado, coisa de dar medo, mas uma vez montado partia em trote rápido para os passeios do rapaz já namorador de moças que moravam distantes. Ao voltar, algumas vezes em escuro de breu, outras com raios e trovões, Rosilho podia até refugar diante de algum obstáculo, mas nunca por ter se deparado com uma assombração.
Assim seguia a vida aquele moço que contraditoriamente era rico e pobre ao mesmo tempo. Rico pelas posses do avô, pobre porque nem ele nem os irmãos partilhavam das rendas daquelas posses que eram (re)investidas, ao invés de proporcionarem um padrão de vida melhor. De qualquer forma não lhe faltavam namoradas, filhas de outros fazendeiros da região e que, provavelmente eram também pobres meninas ricas.
Eis que a mitológica deusa Fortuna, por algum razão que talvez somente Cupido conheça, fez com que um médico da cidade de Jaú recomendasse que a tia avó daquele moço deixasse a cidade para cuidar melhor de sua saúde no campo. Então a família comprou uma propriedade rural não muito distante da daquele rapaz. E a filha mais velha dessa família, moça acostumada aos bons modos da cidade, apareceu-lhe à frente e, como diria o poeta, não mais que de repente, se apaixonaram. Removeram céus e terras, pediram até consentimento ao bispo para se casarem, pois eram primos legítimos.
Quando da divisão acima mencionada, o jovem casal foi habitar uma casa de taipas e chão batido, na propriedade do sogro. Lá permaneceram trabalhando nos cafezais até que o filho mais velho completou 7 anos. Então, venderam as vaquinhas, o alazão, tudo o que possuíam até mesmo as galinhas, e foram para a cidade. O objetivo era claro: estudar os filhos, os meios para tanto, indefinidos.
Vivia-se em 1954, ano do suicídio de Getúlio, começo do êxodo rural. O jovem casal saiu das Três Barras, Borborema, para Itápolis, depois Catanduva. Juntos enfrentaram o mundo desconhecido da cidade, “esta estranha senhora que hoje lhe sorri e amanhã lhe devora” como disse Chico. Sofreram todos os percalços passados pelos migrantes rurais naquela época de transição. Lutaram, trabalharam além das próprias forças, mas o objetivo foi alcançado, os dois únicos filhos estudaram.
Na quarta passada, 03 de setembro, com 93 anos, ele nos deixou. Sua companheira foi um pouco antes, no dia 4 de maio de 2008, dia em que o glorioso Palmeiras, time pelo qual torciam ardorosamente, foi campeão paulista pela última vez. Eram os nossos queridos pais, Valdomiro e Maria.