Ah, esses poetas! Vinicius de Moraes, em um de seus encantadores versos, nos ensinou que “a gente não faz amigos, reconhece-os”. As duas meninas desta crônica, com certeza, teriam se reconhecido amigas, não morassem tão distantes. Viveram, cada qual a sua infância e juventude ignorando a existência uma da outra. Pudera, tão grande é esse nosso Brasil. Vana e Osmarina sofreram, cada qual carregando o seu fardo, a sua cruz, defendendo as suas ideias, lutando por seus ideais. Lamentável não terem se encontrado ainda na adolescência, mesmo porque na infância, a diferença de dez anos na idade de uma para a outra tornaria a amizade inviável. Mas na juventude, essa diferença de idade não seria problema, e elas poderiam ter se encontrado e tornando-se amigas para sempre. No entanto, quis as circunstâncias que somente se encontrassem depois de terem interiorizado concepções um tanto diferentes, que lhes rendeu alguns dissabores.
Essa arte do encontro na vida das pessoas com idênticas características tem que se dar em um momento preciso, se acontece, se perpetua. Caso não ocorra, pode abrir-se a oportunidade de seguirem caminhos diferentes. Os encontros tardios somente são virtuosos se ambas as pessoas tiverem concepções iguais, ao contrário da infância e adolescência, quando as visões de mundo estão a ser estabelecidas e a influência recíproca pode atar laços. Não se pode descartar, no entanto, a tal da empatia, que faz com que nos identifiquemos com o outro.
Mas, vá lá: Vana nasceu no abençoado ano de 1947, no qual foi inaugurado o Museu de Artes de São Paulo. Osmarina veio ao mundo em fevereiro de 1958, ano também de bons desígnios em que o Brasil inventou a bossa-nova e superou o seu complexo de vira-latas, tornando-se campeão do mundo, na Copa da Suécia.
Vana e Osmarina, ambas participaram da luta contra a ditadura militar: a primeira pertenceu ao Comando de Libertação Nacional e Vanguarda Armada, a segunda, filiada ao Partido Revolucionário Comunista, participou da luta Vanguarda Popular. Esses movimentos, no entanto, não tinham uma organização nacional e as meninas, já na força da juventude, não se conheceram nessa oportunidade.
E o mundo foi girando, a mineira Vana reconstruiu a sua vida, pós prisão e tortura no Rio Grande do Sul, onde foi Secretária Municipal da Fazenda (1985-88), presidente da Fundação de Economia e Estatística (1991-93), secretária estadual de Minas e Energia (1999-2002). Em 2002, assumiu o Ministério das Minas e Energia e em 2005 foi designada para a chefia da Casa Civil.
Osmarina foi vereadora em Rio Branco (1988), deputada estadual (1990), senadora em 1994, (re)eleita em 2002. Entre 2003 e 2008 foi Ministra do Meio Ambiente.
Essas duas guerreiras, que disputaram a Presidência da República em 2010, conheceram-se enquanto ministras do governo Lula e foi a partir de então que os desencontros entre ambas se aprofundaram. O radicalismo ambiental de Osmarina se opunha ao projeto de desenvolvimento, principalmente do aproveitamento dos rios do Norte do país defendido por Vana.
Do embate, Vana, também conhecida por Dilma Vana Rousseff, teve o apoio de Lula, e Osmarina, registrada como Maria Osmarina Marina Silva Vaz de Lima, deixou o PT e ingressou no PV, depois tentou fundar a Rede Sustentabilidade e agora está no PSB.
São essas duas senhoras as que detêm, no momento, a preferência do eleitorado brasileiro. A candidatura de Aécio Neves, aposta da burguesia brasileira, afundou. Marina, agora apoiada por banqueiros, teoricamente passou a ser a ungida pela direita. Mas a grande questão é a seguinte: já que Aécio não tem recuperação, será que o agronegócio, por exemplo, confiará em Marina, ou conhecendo Dilma, optará por ela?
A história de que qualquer um serve para tirar o PT do poder não é bem assim. Dilma, todos sabemos, não defende o neoliberalismo, mas tanto quanto Lula só não se submeteu inteiramente ao capital por conta das políticas sociais que estão tirando milhões de brasileiros da pobreza. E Marina, que agora tornou-se neoliberal, sustentará essa política, que é privatista e antissocial, ou isso é apenas uma tática de campanha, para depois voltar a ser intransigente quanto antes?
Passada a comoção pela morte de Eduardo Campos, cresce a rejeição à Marina e Dilma deverá ser (re)eleita.
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