Tentando cooptar Jesus e atraí-lo para o partido contrário à dominação romana na Palestina, perguntaram-lhe se era justo os judeus pagarem impostos aos romanos. Mostrando-lhe uma moeda de ouro na qual se encontrava a efigie de Cesar Jesus lhes respondeu “dai a Cesar o que é de Cesar e a Deus o que é de Deus”.
Pagar impostos, subornar e corromper são coisas tão velhas quanto a organização social. Sonegação, suborno, corrupção, até parecem ser inatas aos humanos. No Brasil, esses distúrbios aparecem desde o momento do descobrimento. Na Carta de Caminha, ao final, está uma solicitação ao Rei para que liberte seu genro condenado ao degredo. Nas Capitanias Hereditárias, os capitães, longe do poder central, faziam e desfaziam do erário.
Anterior à ditadura, as disputas entre Adhemar de Barros e Jânio Quadros geraram piadinhas como a de que no céu havia um ventilador para cada um deles e esses ventiladores eram movidos à corrupção. De tão corruptos, as pás de seus respectivos ventiladores giravam tão rapidamente que não era possível sequer vê-las. O enterro de Jânio foi financiado por uma empreiteira e a sua conta bancária na Suíça foi denunciada pela filha Tutu, recentemente falecida nos Estados Unidos. E na casa de uma amante de Adhemar, em 1969, a Vanguarda Armada Revolucionária Palmares, que combatia a ditadura militar, expropriou um cofre com mais de dois milhões e meio de dólares, em espécie.
No Brasil houve corrupção na época de Colônia, durante o período Imperial, nos tempos de ditaduras e de regimes democráticos. E esse mal não atinge apenas o nosso país. A ONG Transparência Internacional pesquisa a corrupção em 177 países e o seu diretor, Alejandro Salas, afirmou que o Brasil “não está nem no topo e nem no fim da tabela”. Estamos lá por volta do 72º lugar.
Em tempos de campanha política, o tema ressurge tanto nos programas partidários quanto na mídia. A grande imprensa, solidária à direita, bombardeia os seus leitores com notícias que atingem principalmente o Partido dos Trabalhadores. É mensalão daqui, Petrobrás de lá, dizem que nunca em nossa história a corrupção foi tão intensa. Lembro-me, então, de uma propaganda de biscoitos: “vende mais porque é fresquinho ou é fresquinho porque vende mais? A corrupção brasileira está mais elevada nos últimos anos ou o combate à corrupção é que enseja o desvendamento de tantos casos? E esse desvendamento atinge apenas o PT de Dilma? Aécio e Marina são os santos da história?
O Ministro Joaquim Barbosa julgou o mensalão petista e na hora de julgar do mensalão do PSDB, aliás mais antigo, aposentou-se precocemente. E que dizer da privataria tucana? A privatização da Vale do Rio Doce, em 1997, e do Sistema Telebrás, em 1998, talvez estejam entre os dez maiores escândalos mundiais. O livro “O Brasil Privatizado”, de Aloysio Biondi, nos revela as subavaliações das empresas, vendidas com dinheiro em caixa. Coisa absurda tanto quanto se o vendedor de um imóvel o vendesse com um cofre com tanto dinheiro quanto o valor da própria casa. O leitor há de se lembrar de cenas com o povo nas ruas protestando e os vendilhões, inclusive FHC e Aécio, erguendo os punhos, aplaudindo, gargalhando, a cada batida de martelo anunciando a venda de nosso patrimônio.
E a comprovada compra da (re)eleição de FHC a 200 mil por deputado que aceitasse a proposta? E do esquema dos metrôs paulistanos, envolvendo Mário Covas, Serra e Alkmin. O Wall Street Journal, que revelou o esquema Alstom, diz que em um só negócio do metrô de São Paulo, no valor de 45 milhões de dólares, a empresa desembolsou 6,8 milhões de dólares em propina.
Será mesmo que “pau que bate em Chico bate em Francisco”? Antes de deixar a Secretaria de Estado Norte-Americano, Hilary Clinton elogiou o governo Dilma afirmando na BBC que “a luta do Brasil contra a corrupção é exemplo”. No entanto, a mídia de direita somente vê corrupção em uma face da moeda.
Não creio que haja uma varinha mágica para acabar com a corrupção, sonegação e subornos, mas combater esses males é dever de todos e, penso eu, é primordial uma reforma política, realizada por uma Assembleia especialmente convocada para tal. As demais reformas viriam naturalmente. Deixemos, pois, de hipocrisia, a corrupção espalha-se por todo o tecido social.