Leio Betânia no ponto em que autor – Luís Carlos Luciano – demonstra que a história de Dourados precisa ser (re)escrita. De fato é preciso desmistificar muito do que a história oficial nos legou. Muitas dissertações e teses, quase já nos possibilita uma síntese. Mas ainda estamos distantes, em especial sobre aqueles que serviram os banquetes, amassaram o barro para a telha e o tijolo, contaram causos, construíram ruas e casas. Precisamos enfim contar também a história dos vencidos, dos que lutaram e contribuíram para a edificação de nossa cidade.
Dentre os inúmeros personagens que andam um pouco esquecidos nos meios políticos está Sultan Rasslan, formado em história pela UCDB, mas professor de Educação Física, amado e inesquecível pelos seus alunos do Presidente Vargas. Sultan foi vereador, presidente da Câmara, contribuiu para a formação do SIMTED e da FETEMS, foi deputado constituinte e disputou a prefeitura de Dourados em 1982, na mesma chapa de Toto Câmara (PMDB), sendo derrotado por Luís Antonio Alvares Gonçalves.
Em 1984 presenciei o então governador eleito Barbosa Martins convidar Sultan para a Secretaria de Educação,mas uma reviravolta inexplicável o alijou desse cargo.
Sultan era um homem aguerrido, voz forte, acostumado com os microfones da Rádio Clube Rural, fazia discursos apaixonados em defesa da democracia, da liberdade de expressão. Participei com ele de dezenas de comícios em defesa das “diretas já”, mas os nossos olhos não explodiam em sangue de raiva e de nossos corações não sai o ódio, pregávamos a esperança de um Brasil melhor.
Em 1977, antes de ser tudo o que foi, o CEUD, em estado falimentar, com professores contratados por horas aulas, diferentemente de Campo Grande, sem receber recursos para as suas realizações, promoveu uma greve. Professores e alunos clamando por melhorias. E eis que chega o Sultan mostrando-me uma carta de nomeação para ser professor. Não tive dúvida em dizer-lhe que ele estava equivocado em aceitar aquela nomeação, pois estava “furando” uma greve justa. Pensei ter conquistado um inimigo e perdido a amiga Irene Nogueira Rasslan, já professora do Departamento. Mas, para a minha surpresa Sultan voltou imediatamente para Campo Grande e devolveu a nomeação ao reitor.
Em janeiro de 1978 fui demitido da Universidade por “subversão à ordem vigente”. Dentre as inúmeras visitas de solidariedade que recebi, estavam Irene e Sultan e ele, então presidente da Câmara, transformou-me no primeiro assessor de imprensa que a nossa Câmara teve. Depois disso, com dezenas de outros amigos, lutou para o meu regresso á Universidade.
Dilma e Sultan fazem parte de uma estirpe de pessoas honestas, sinceras, capazes de compreender as diferenças e diversidades. Mas, acima de tudo capazes de perdoar, pois ambos foram presos, embora Dilma muito mais maltratada. Perdoar e amar são as duas palavras mais belas que existe no cristianismo.
Sábado, dia 18, quando esta crônica estiver publicada estarei convalescendo de uma cirurgia para redução de próstata, felizmente um hiperplasia benigna, que só me trará melhorias nas minhas condições de vida. Mas se me alegro por restabelecer minha saúde, entristeço-me por não poder estar nas ruas junto com a militância de meu partido, mostrando com todas as letras que Delcídio e Dilma são as melhores opções para o nosso país.
Sultan, eu, a nossa geração que tanto lutou pela democracia, jamais pode perder a esperança, porque a esperança é chama que alimenta. Ele que sempre foi um vencedor porque mesmo quando perdia eleitoralmente manifestava ideias que seriam vencedoras em futuro próximo, por isso quando às vezes nos bate um cansaço, devemos nos voltar para o passado, fazer um balanço e ver que na verdade somos vencedores.
E é essa centelha de esperança de vencedores que devemos passar aos nossos filhos e netos, é isso o que nossos amigos e ex-alunos esperam de nós, porque nós sabemos que essa vida é luta e é lutando que se consegue as coisas.
Nessa semana em que comemoramos o dia do professor, que o exemplo de Sultan Rasslan nos sirva de incentivo, de entusiasmo, de compreensão de que constituímos uma categoria que deve ter a consciência de classe para contribuir na transformação do nosso mundo em um lugar onde reine a fraternidade, a justiça social e a igualdade.