Quando jovem ouvia dizer que os votos eram trocados por um par de sapatões e que os políticos mais espertos entregavam um pé antes das eleições e, se eleitos, então entregavam o outro. Naqueles tempos em que os agricultores muitas vezes trabalhavam descalços, quando muito com alpercatas da Rhodia, ganhar um par de sapatões era um luxo.
Verdadeira ou como metáfora, essa história refletia uma dura realidade: a barganha de voto no Brasil era coisa antiga, assunto inclusive abordado em 1948 na obra “Coronelismo, enxada e voto”, de Victor Nunes Leal. O poder dos coronéis era proporcional ao tamanho de sua clientela, havendo inclusive os que dominavam coronéis de pequena monta. Com base nessa rede de poder, os coronéis barganhavam votos com os políticos em todos os âmbitos.
Com o declínio do coronelismo, o povo passou a barganhar o seu voto diretamente com os políticos ou com os seus cabos eleitorais. E assim, de eleição em eleição, sempre foi havendo uma evolução na troca do voto: ora um brilhoso par de dentaduras, ora de óculos ou de umas telhas de Eternit, não faltando a época das cestas básicas, laqueaduras ou de algumas notas de papel moeda.
A Justiça Eleitoral tenta evitar esse procedimento, usando o poder de polícia para fiscalizar as eleições. As Leis são também sucessivamente adaptadas no sentido de punir os efeitos nocivos desse tipo primário de barganha. Mas a lambança é como água de morro abaixo, ainda não apareceu quem detenha. E a má notícia é que muita gente se sente tão esperto que “vende” o seu voto para vários candidatos. Essa esperteza, essa barganha rude é que elege políticos corruptos.
Mas não sejamos pessimistas, desde a Proclamação da República em 1889 até os dias atuais, mesmo com os períodos sombrios das ditaturas, o povo brasileiro passou por uma evolução significativa, seja pelo aumento do nível de escolaridade verificado no país, seja pela garantia de sua segurança alimentar. O poder de barganha aumentou e boa parte da população já prefere barganhar o seu voto por mais ensino, mais segurança, mais cultura, enfim, maiores benefícios a toda a sociedade.
Os que ainda hoje vendem o seu voto, barganham-no por quinquilharias, são espécie da mesma laia dos políticos ladrões. Portanto, não apenas os políticos são corruptos (aliás nem todos o são), assim como certos tipos de câncer que provocam metástase pelo organismo humano, a corrupção espalha-se também pela sociedade, sem poupar religiosos, magistrados, comerciantes, profissionais liberais, associações de classe, enfim, o que desejo afirmar é que temos tantos políticos corruptos quanto forem proporcionalmente os eleitores corrompidos.
Não podemos, no entanto, simplificar. Muitas bancadas, hoje, nas três esferas de poder, são constituídas por integrantes de Igrejas, do agronegócio, da indústria, dos banqueiros e até por uns gatos pingados que representam os trabalhadores. Significa dizer que estamos caminhando para uma espécie de democracia representativa dos interesses de categorias organizadas. Verdadeira volta à Idade Média, quando em Portugal, por exemplo, foi instituída a Casa dos 24, ou seja, uma Câmara com representantes dos 24 ofícios exercidos na cidade de Lisboa àquela época. Nesse caso, os eleitores não estão mais elegendo modos de governar, mas defensores de interesses específicos de categorias sociais.
Para concluir, ressalto mais dois tipos de eleitores: o de consciência ingênua, que embora não venda o seu voto, é incapaz de avaliar coerentemente os candidatos e a conjuntura que os cerca e os que votam ideologicamente. Os de consciência ingênua correspondem aos alienados, ou seja, àqueles que tem uma visão distorcida ou fragmentada da realidade. Quanto aos que votam por ideologia, são pessoas que acreditam em uma determinada forma de governo e lutam por ela, muitas vezes sabendo que os seus candidatos não têm a mínima chance de se elegerem, na atual conjuntura.
Esses eleitores ideológicos têm compreensões específicas: os de esquerda têm a tarefa de mostrar que um mundo mais justo é possível, por meio de ações sociais. Os de direita, por se constituírem na elite econômica, obrigam-se a escamotear a realidade procurando mostrar que o mercado regula a economia e que se todos forem espertos, todos serão ricos.