“Os dois brasis”, escrito em 1957 por Jacques Lambert, quando graças a política industrializante de Juscelino Kubistchek houve um êxodo rural extraordinário que fez do Brasil ao mesmo tempo um país moderno e arcaico, não tem absolutamente nada a ver com o quadro político atual em que alguns meios de comunicação tentam dividir o país em um pedaço rico e desenvolvido, capaz de votar em forças de direita e outro, pobre e ignorante, necessitado de votar em forças de esquerda.
Logo após as eleições, o Coronel Telhada, eleito deputado estadual pelo PSDB-SP, genuíno representante da direita, chegou a defender a ideia de que o Brasil deveria ser dividido em dois, ficando de um lado o Sul, Sudeste e Centro Oeste e de outro o Norte e Nordeste.
Dilma obteve mais de 40% dos votos em todas as regiões brasileiras, portanto, se déssemos crédito a essa ideia, deveríamos enviar esses 40% para o Norte e Nordeste e em contrapartida trazer para o Sul e para o Centro Oeste os 20% dos brasileiros do Norte e Nordeste que votaram para Aécio.
Ano passado o professor Thomas Piketty, da École des Hautes Études en Science Sociales, lançou um livro no qual diz que "Os ricos ficarão sempre cada vez mais rapidamente mais ricos (e para) a maioria da população, em contrapartida, os rendimentos dos salários não são mais suficientes para que criem reservas."
Significa dizer que nos países governados por políticas neoliberais as diferenças tendem a aumentar. Mas como explicar o acirramento da eleição presidencial no Brasil, que nos últimos doze anos experimentou uma política de bem estar social, com crescente diminuição da pobreza e a emergência de uma nova “classe média”?
O fenômeno tem sido explicado de modo que ao menos subliminarmente se entenda que os que pagam impostos, os que têm maior escolaridade votaram Aécio e os mais necessitados e com menor nível de escolaridade votaram Dilma. Nesse sentido os programas sociais não seriam portanto um fator de melhor distribuição de renda, mas sim uma espécie de compra de votos.
Mas existem outras explicações, a primeira delas é a de que as elites dominantes constituíram um imaginário, assimilado pela maioria da sociedade, de que é possível ficar rico por meio do trabalho. Por via de consequência, a segunda explicação é a de que políticas governamentais não interferem na ascensão do cidadão. Por essas razões essa classe média emergente, convencida pela ideologia dominante de que ascendeu por mérito próprio, não atribui a políticas governamentais a sua ascensão, e sim ao seu esforço pessoal, à sua luta, à sua inteligência ou esperteza.
Quantos professores, médicos, engenheiros, oriundos das camadas populares não passam a negar ou não reconhecer as suas origens? Creem que superaram a pobreza por si próprios e, pior, defendem o sistema que engendra a pobreza. Pessoas assim, sem consciência de classe, são as que mais contribuem para a reprodução de um sistema perverso, com a eleição de políticos que somente defendem os interesses da elite dominante, e que dificulta a construção de uma sociedade mais justa.
Isso nos faz entender porque a Câmara dos Deputados, ano passado, rejeitou a proposta da presidente Dilma para a realização de um plebiscito para a Reforma Política e explica também porque nessa semana passada a mesma Câmara não aprovou o projeto também da presidência, de criar Conselhos Populares.
Para resumir o assunto ao espaço de uma crônica concluo afirmando que os dois brasis não existem em espaços geograficamente demarcados e sim em espaços socialmente demarcados, sendo que a ascensão social se dá em larga escala graças a políticas públicas e não apenas ao esforço pessoal.
Não se trata portanto de dividir geograficamente o Brasil, mas de consentirmos que as desigualdades diminuam e tenhamos um país mais justo.
A UFGD, por exemplo, abriu nessa semana mais 81 vagas para professores que terão salários, casas, carros, empregadas e formarão centenas de alunos, a maioria oriunda da classe trabalhadora e que terão um futuro promissor. Professores e alunos no entanto, em sua maioria, atribuirão seus êxitos aos seus esforços individuais, e não estarão totalmente errados, mas é preciso lembrar que houve alguém que criou a UFGD para alimentar-lhes o sonho. Outros exemplos não faltam.