A primeira estrofe do “Cântico Negro”, de José Régio, se encaixa perfeitamente aos “conselhos” que a grande mídia está oferecendo diariamente à presidente Dilma: "Vem por aqui"/dizem-me alguns com os olhos doces/ estendendo-me os braços, e seguros de que seria bom que eu os ouvisse quando me dizem: "vem por aqui!"/Eu olho-os com olhos lassos / (Há, nos olhos meus, ironias e cansaços) / E cruzo os braços /E nunca vou por ali...
Não se trata de Dilma cruzar os braços, mas de encontrar-se em uma encruzilhada, precisando definir o caminho que tomará. De ir ou não ir por determinado rumo.
Quando presidente, Sarney disse que “o presidente pode muito, mas não pode tudo”. Estava correto. Os presidentes, quando assumem, entram em um brete, pois o palácio acaba sendo o logradouro onde o(a) presidente é retido, acuado, atacado em todos os flancos. Sem maioria no Congresso, os seus projetos vão sendo retalhados por emendas ou simplesmente recusados devido às circunstâncias construídas por inumeráveis personagens e situações. São as crises externas interferindo, são deputados exigindo liberação de verbas em troca de votos, a polícia atuando seletivamente, sãos os diferentes ministérios públicos e juízes de tribunais de contas, de olho nos mínimos detalhes, seguindo passo-a-passo as ações governamentais.
Nossas leis eleitorais propiciam a existência de um Congresso plurifacetado: dos 32 partidos existentes, ao menos 20 tem representação em nosso parlamento. Como administrar a composição de uma bancada fiel? Mas não é tudo, há uma questão mais profunda, a da superestrutura.
Sabemos que a infraestrutura é o sistema pelo qual a economia de uma sociedade é organizada, no nosso caso o capitalismo. A infraestrutura é determinante na geração de uma superestrutura, ou seja, tudo aquilo que compreende especialmente as esferas políticas, midiáticas e jurídicas.
Quando um país possui uma infraestrutura capitalista e o governo eleito é de direita, os seus anseios, por via de consequência, vão ao encontro daquilo que está estabelecido na superestrutura.
Por outro lado, quando um país capitalista elege um governo de esquerda, há um choque, pois as mudanças que esse governo tenta fazer na infraestrutura são barradas pela superestrutura (mídia, estrutura política e judicial). Por esse ângulo, torna-se mais fácil entender o que está acontecendo no Brasil. Quando FHC tentou implantar o neoliberalismo, dando à iniciativa privada maiores vantagens e transformando o estado em um “estado mínimo”, (privatizações, arrocho salarial, desemprego), não encontrou resistência de nenhum componente da superestrutura, mas o povo brasileiro, descontente, elegeu Lula, que operou transformações profundas, continuadas por Dilma. O Brasil gerou com isso uma “classe média” mais numerosa e economicamente mais robusta. Mas uma “classe média” que não incorporou o ideário da esquerda, e sim, supondo-se responsável pela sua ascensão, essa “classe média”, graças a superestrutura existente, assimilou o pensamento de direita. Daí o aperto na (re)eleição de Dima.
Ocorre que a direita jamais esperava a (re)eleição de Dilma. Para ela, a disputa seria entre Dilma e Aécio, sendo que Eduardo Campos era o coadjuvante que levaria a campanha para um segundo turno, ao mesmo tempo em que se preparava para 2018. A história é conhecida. Aécio teve fraco desempenho e, com a morte de Campos, Marina entrou na disputa, mas sendo desbancada, a grande mídia nacional operou como se fora um partido e propiciou a Aécio a expressiva votação que obteve.
Dilma ganhou e parece inevitável que tente avançar com as concepções de esquerda, daí as várias tentativas de golpe, seja da parte do Supremo, tentando aumentar em cinco anos a permanência dos ministros no cargo, impedindo assim novas nomeações pela presidente, seja pelas ações seletivas da Polícia Federal, ou pelas ações de parlamentares reacionários tentando evitar que Dilma governe e até mesmo incentivando manifestações de rua.
Por mim Dilma deve cumprir o que está na Constituição de 1988 e que muitos ex-presidentes desconheceram: Art. 3º Constituem objetivos fundamentais da República Federativa do Brasil: III - erradicar a pobreza e a marginalização e reduzir as desigualdades sociais e regionais.