O patrimônio cultural é o conjunto de bens materiais e imateriais que uma localidade tem a obrigação de preservar para poder prestigiar a história, a arqueologia, a música, a pintura, enfim, cultivar a memória do passado e do presente para o futuro. As poesias de Emmanuel Marinho, os quadros de Rigotti, os versos de Odila, o Coral Guaraobi, só para citar uns poucos exemplos, fazem parte do patrimônio cultural imaterial de Dourados. Monumentos, prédios, estátuas, por sua vez, fazem parte do patrimônio material. Sobre esse patrimônio, confio a crônica de hoje, motivado por uma mestranda em história pela UFGD, que está trabalhando esse tema, e por uma visita que fiz ao Centro de Documentação Regional (UFGD).
Em entrevista com a mestranda, falamos sobre a demolição da Capela de Nossa Senhora de Fátima, na Cabeceira Alegre, da demolição do Clube Social, conversamos muito sobre a Usina Velha, relembrando fatos marcantes para a preservação de suas ruínas. Destacamos o tombamento, em 1991, pela iniciativa do vereador Carlos Cristino de Oliveira (aluno da primeira turma de História do CEUD); o trabalho monográfico de iniciação científica da historiadora (também do CEUD) Analina Ferreira, feito em 1999, o lançamento do livro de poesias naquele local, todo iluminado, de nossa imortal Heleninha, da apresentação do Coral Guaraobi, dirigido por Adilvo Mazzini, do projeto do arquiteto Luís Carlos Ribeiro, da preservação do Parque Usina Velha sob a direção de Lelian Pasckoalick, da frustrada instalação de uma usina termoelétrica que pertencia ao Sr. Amauri Brum e que hoje se deteriora no fundo do Teatro Municipal.
Dourados é uma cidade nova, a consciência para a preservação de nosso patrimônio ainda está em construção. Ainda hoje, troca-se uma rotatória por um semáforo velho, como se trocássemos de camisa, sem a percepção de que as rotatórias se constituíam em um patrimônio para a cidade. Mudam-se estátuas de um local para outro sem mais nem menos, como se elas não fossem marcos históricos e definidores geográficos. E ainda são colocadas em localidades de pouca visibilidade e até em desrespeito a uma comunidade. Os índios da reserva Francisco Horta provavelmente não devem estar satisfeitos ao passar diariamente pelo monumento à Getúlio, que os mandou confinar. Com certeza apreciariam mais se ali tivesse sido erguida uma homenagem a Marçal Tupã’y.
O patrimônio cultural de nossa cidade, aos poucos vai sendo destruído (a retirada do museu do prédio da prefeitura antiga é sinal de que aquele patrimônio esteja em risco) e a paisagem urbana se modificando, em favor do automóvel, como escreveu essa semana, nesse mesmo espaço, um profundo conhecedor de planejamento urbano, o professor Mário Cesar Tompes.
Se o Museu corre risco e se o Arquivo Público Municipal também foi relegado (Tetila havia preparado o espaço superior da Rodoviária para abrigá-lo e até mesmo aberto um concurso público para arquivista), ao menos os douradenses podemos nos orgulhar de termos um Centro de Documentação Regional. O professor Paulo Roberto Cimó Queiróz, incansável diretor daquele Centro, disse-me que o prédio onde está instalado já não comporta tanto material e que o reitor Damião Duque de Farias já está providenciando a licitação de um prédio maior. Espantei-me em ver coleções inteiras de nossos jornais locais e principalmente com a tecnologia usada para a preservação de nossa história e memória: o jornal “O Progresso”, por exemplo, já está digitalizado até 1988. Lembrei-me de uma entrevista de Harrison de Figueiredo, muito utilizada na obra da professora Susana Arakaki, “Dourados: memória e representações de1964”, e não é que o funcionário apertou uma tecla do computador e lá estava a entrevista totalmente digitalizada? Se um familiar de Harrisson ou de outras centenas de entrevistados desejarem, basta levar um pen-drive e pedir uma cópia para recordação da família. E a importância desses documentos para os pesquisadores, não só locais, mas nacionais e internacionais?
Por lapsos de memória, contribui pouco com a mestranda, então brinquei, parafraseando piadinha das redes sociais: se em minha velhice eu tiver que optar entre o Mal de Parkson e o de Alzeimer, escolho Parkson: prefiro derrubar a metade da taça de vinho do que esquecer-me do local onde guardei a garrafa.