Em Cafundó, cidade natal de Bepi, ele e seu inseparável amigo, Tino Sonso, conversavam animadamente sobre futebol quando repentinamente Bepi parece ter entrado em seu polo non sense, ou seria o contrário, teria entrado em seu polo do senso? (Cf. histórias de Bepi in: biasotto@biasotto.com.br).
Nesse estado, sei lá qual, Bepi Bipolar desandou a traçar para o amigo os planos que tinha em sua cabeça para desenvolver a sua querida Cafundó. Sua intenção era a de passar para o papel esses seus projetos e entrega-los ao prefeito, ao governador e chegar até mesmo à Presidência da República. Tino, como sempre, ouvia-o atentamente:
- Sabe Tino, para a nossa Cafundó se desenvolver harmoniosamente, em primeiro lugar, é preciso cuidar da Educação. O prefeito deve nomear para Secretário(a) uma pessoa que conheça o meio, ou seja, nomear um professor(a) para o cargo. Em seguida, tem que melhorar os salários e propiciar meios para que os professores passem pelo menos um terço de seu contrato preparando as suas aulas. O mundo de hoje é muito cheio de tecnologias e nem sempre os professores acompanham, daí a necessidade de permanente atualização. Ora, agora estão dizendo que há um piso nacional para o salário que não chega a 2 mil reais. Os governos e prefeitos acham muito. Mas Tino, pense bem, os deputados, juízes, dentre outras categorias, ganharem mais de 30 mil não é pouco, para os professores a décima parte disso é muito. Tenha dó. Depois há que se estabelecer o ensino integral, não dá mais para aprender o Mundo em mirradas quatro horinhas.
E Bepi Bipolar continuou a expor as suas ideias, quase sem tomar fôlego:
- O segundo aspecto do meu plano é cuidar da Saúde Pública. Mas não me passa despercebido que existe um conflito entre o que pode o SUS e o que querem os médicos. Então, a providência imediata é buscar médicos estrangeiros, mesmo que seja para pagar-lhes 4 vezes mais do que se paga a um professor. Em seguida, precisamos urgentemente construir um hospital regional para aumentarmos a rede já existente, de modo a atendermos a demanda com eficiência. Esse negócio de “quebra galho” quando se fala em saúde pública é absurdo, coisa intolerável que pode atender a interesses políticos, mas não aos da população.
Tino Sonso ouvia embevecido, e Bepi continuava:
- O que vejo Tino, é que muitos dos governantes só falam em cortar, como se uma ou duas secretarias a mais ou a menos fizessem a diferença. O que os governos precisam é planejamento, de modo que aumentem a arrecadação sem majoração de impostos para os que já pagam e taxar, por exemplo, as grandes fortunas. Esse negócio de cortar dos trabalhadores é um tiro pela culatra, pois quem consome mais bens em geral são os trabalhadores. Bons salários tendem a aumentar o consumo e, por via de consequência, geram a necessidade de os industriais produzirem mais e os comerciantes venderem esses produtos, a partir de alimentos até bens mais sofisticados. Isso geraria um círculo virtuoso sem volta. As coisas em nossa Cafundó devem girar como uma engrenagem sem dentes quebrados. Boa educação gera bons médicos, bons juízes, bons políticos, enfim, bons cidadãos. Por outro lado, bons salários para todos os trabalhadores geram consumo, consumo gera produção, produção gera impostos que devem ser utilizados para propiciar aos cidadãos educação, saúde e lazer. Se você corta, salário você gera desemprego, entendeu? Porque salário é que impulsiona a massa consumidora. Gerando desemprego você aprofunda a recessão que já ameaça o nosso país devido à crise norte-americana de 2008 que arrastou consigo a Europa toda.
Tino Sonso, bom ouvinte, quase sempre calado e admirador das ideias de Bepi, levantou a cabeça e ousou interromper o amigo falastrão para perguntar-lhe se as coisas eram tão fáceis como ele estava dizendo.
- É difícil, o sistema emperra, é preciso vontade política, é preciso o povo nas ruas, não para depredar, mas para participar, exigir uma reforma política capaz de (re)organizar a sociedade sob novos parâmetros. Acabar com o analfabetismo, com a pobreza, com a corrupção. Corrupção! Mani pulite (mãos limpas), mas não como na Itália, onde as instituições foram afetadas por culpa dos corruptos. Mata-se os carrapatos, não a vaca.