Inspira-me, nesta crônica, animada conversa com um amigo em seu consultório médico, onde iniciamos por relembrar os tempos heroicos do curso de Medicina da UFGD, no qual vários médicos de Dourados atuaram como voluntários, alguns em absoluto anonimato, como o Dr. Rodolfo Rupp. Nesta conversa, tive a oportunidade de folear um livro trazido diretamente de Dubai, no qual se vê a evolução da cidade nos últimos 35 anos. É impressionante constatar como um povoado localizado nas areias do deserto se transformou em centro esportivo e de feiras internacionais, em sonho de consumo de turistas de todo o mundo.
Essa vertiginosa transformação somente pode ser explicada pelo fato de que os seus governantes perceberam que o petróleo, então a sua principal fonte de riqueza, se esgotaria rapidamente. Idealizaram a edificação de prédios deslumbrantes em largas avenidas que encantam o mundo. Para 2020, já está programada uma monumental feira mundial ao custo de 7 bilhões de dólares e que atrairá 70 milhões de turistas. Dubai não transformou o petróleo em fumaça apenas, transformou as rendas dele proveniente em suntuosa obra e hoje apenas 6% do seu PIB é proveniente do petróleo.
No Canadá, a maior produtora de petróleo é a província de Alberta. Por aquelas bandas também ninguém desconhece que o petróleo é uma riqueza não renovável, então foi criado um Fundo que investe 30% das receitas do petróleo em três principais objetivos: poupar para o futuro, diversificar a economia para garantir novas fontes de riqueza quando o petróleo se esgotar e investir em saúde, educação e infraestrutura. A mentalidade vigente é de que a geração atual está aproveitando-se de uma riqueza transgeracional e que, por via de consequência, é de justiça guardar para as próximas gerações algum legado disso que está sendo explorado. Pensamento altamente altruísta, lamentavelmente ignorado por muita gente que somente pensa no consumismo imediatista e não tem a mínima noção de que poderia legar para a posteridade um planeta ainda melhor.
Nesse sentido, seria interessante um trabalho jornalístico, geográfico ou historiográfico sobre o aproveitamento dos recursos não renováveis da Terra. Seria extremamente proveitoso saber o que cada país está consumindo e em que está aplicando as rendas desses recursos. Falemos do Brasil.
A gigantesca petrolífera brasileira, fundada em 1953 por Getúlio Vargas, desafiando desde àquela época os americanófilos que insistiam na tese de que no Brasil não existia petróleo, desenvolveu-se em ritmo acelerado. Uma empresa apenas sexagenária, tornou-se uma das mais importantes do mundo, tanto na pesquisa quanto na prospecção e refino do petróleo. Expandiu-se para outras áreas na busca de produção de energia, tornando-se verdadeiro orgulho nacional. É uma empresa estatal de capital misto, monopolista da exploração do petróleo até 2000, quando FHC quebrou esse monopólio permitindo que outras empresas o explorassem em terras e águas brasileiras.
Pioneira na exploração de águas ultra profundas chegou ao pré sal, um colossal estoque de petróleo que não somente tornará o Brasil autossuficiente como exportador do produto. E o que fez o governo brasileiro? Fez votar uma Lei que destina 75% dos royaties do pré sal para a Educação e 25% para a Saúde Pública. Significa dizer que o Brasil, a exemplo de outros países adiantados do Mundo, estará investindo em seu povo aquilo que lucra da exploração de um recurso não renovável.
Mas há um porém: a corrupção dentro da Petrobras. Comprovadamente, desde 1997, quando FHC implantou o regime de concessões, políticos e empresários locupletaram-se com propinas oriundas de nossa petroleira que, atualmente, paralelamente às investigações da Polícia Federal, sofre intensa campanha de desmoralização na mídia nacional, de modo a preparar a opinião pública para uma eventual privatização a partir do momento em que os entreguistas assumirem novamente o governo brasileiro.
As apurações da incontestável corrupção na Petrobras precisam ser aprofundadas e os seus promotores punidos severamente, o que não se deve é generalizar, desconstruir a imagem de uma empresa extremamente capaz e essencialmente importante para o futuro do Brasil.