Crises são provocadoras de pequenas e grandes transformações. As econômicas normalmente surgem quando determinado país gasta mais do que arrecada, se endivida e não consegue saldar os seus compromissos. Atualmente é o caso de Portugal, Irlanda, Itália e Grécia que, em séria crise, arrastam o restante da Europa e todo o Mundo com eles, uma vez que atualmente as relações econômicas e financeiras são todas interligadas. Em 2008 foram os Estados Unidos que provocaram uma crise também mundial em virtude da bolha imobiliária.
Podemos dizer que vivemos também uma indisfarçável crise religiosa em virtude de as grandes religiões não estarem mais conseguindo que os seus fiéis sigam os seus dogmas. A cristandade se fragmenta. No Mundo muçulmano a má interpretação do Alcorão leva ao aparecimento de grupos radicais. O Judaísmo, seguindo o Velho Testamento, ainda em muitos casos, defende o “olho por olho, dente por dente”.
As transformações nos relacionamentos sexuais também provocam crises na família e na sociedade. Os casamentos estão se tornando obsoletos, as relações homo afetivas embora já vistas sem a execração sofrida anos atrás, ainda incomoda.
Também como crise podem ser chamados os comportamentos degenerados daquilo que a sociedade estabeleceu como éticos ao longo dos séculos: receber propinas, cometer adultério, enganar ao próximo, falsificar produtos e uma infinidade de contravenções que fogem às regras estabelecidas e geram aquilo que chamamos de crise moral.
Evidentemente que a crise mais doída é a econômico-financeira, aquela que para os trabalhadores faz com que o salário se torne mais curto do que o mês, para os empreendedores quando as despesas se tornam maiores que as receitas e para os governos idem, quando os recursos oriundos dos impostos não são suficientes para alavancar a economia e, pior, quando não dão sequer para honrar os compromissos de custeio.
Via de regra as crises costumam vir juntas e nem vamos falar das crises conjugais, das transgeracionais, educacionais, existenciais, para nos determos na crise política.
Penso que a atual crise política que atravessamos decorre em primeiro lugar do próprio sistema, democrático sim, mas que mostra-se incapaz de atender às necessidades populares. Dirão alguns que as deficiências estão ligadas aos problemas financeiros que o país enfrenta. Vá lá, que seja, mas a maneira como são captados os recursos das campanhas é que levam à corrupção e por via de consequência à crise.
Tomemos exemplos: o racionamento de água em São Paulo, agora metaforicamente chamado de crise hídrica não é apenas pela diminuição das chuvas nesses dois últimos anos, mas foi provocado pela falta de planejamento do governo do estado e por improbidade na utilização do dinheiro da SABESB que, ao invés de investir em novas opões de captação de água, preferiu pagar acionistas. E que falar de outros escândalos: dos mensalões tucano e petista, da lista de furnas, do metrô paulistano e, por último da Petrobras? Todos esses fatores e tantos outros correlatos levam à deterioração do relacionamento entre os poderes da República e sociedade.
A questão que deve ser posta é a seguinte: o político se corrompe no poder ou é um cidadão corrupto que assume o poder? O cidadão corrupto ao assumir um cargo de Juiz de Direito, por exemplo, torna-se honesto a partir de então? O vereador, deputado, senador, prefeito, governador, presidente, ministros e secretários, nascem corruptos, a sociedade os faz corruptos ou os cargos que ocupam os corrompe?
Quantas vezes ouvi falar que bobo é o político que não rouba. Isso significa dizer que a sociedade ao mesmo tempo em que condena, aplaude a corrupção. Então temos que reformar a política ou a sociedade?
Chegamos ao fundo do poço. Ainda nesta semana Serra e Aécio, que defendiam medidas de austeridade aplaudiram a mesquinhez do presidente do Senado (Renan Calheiros) por devolver ao Executivo justamente uma Medida Provisória austera, em represália ao fato de seu nome ter sido encaminhado ao Supremo por possível participação no esquema de corrupção que se instalou na Petrobras.
O povo não discernindo a origem da crise se contamina pelos meios de comunicação. O bom é que estando no fundo do poço temos que trabalhar até encontrarmos novamente água límpida.