De manhã um homem iniciava uma rotina de trabalho que era o de limpar. Trabalho sim, e muito valoroso, embora ele o fizesse sem ganhar nada de ninguém, sem ter um emprego, era uma contribuição voluntária que dava à sua cidade. Com um prego espetado na ponta de um pau roliço ia coletando papéis, sacos e copos de plástico e colocando-os em uma sacola dependurada à altura da cintura. Nem olhava para trás para satisfazer-se com resultado de seu esforço, mesmo quando a sacola era esvaziada em algum coletor de lixo. Uns diziam que era louco, outros que estava aposentado e que encontrara naquele ofício de catar papéis ao longo dos canteiros centrais das avenidas da cidade, uma forma de ocupar-se. Uns poucos acreditavam que ele fosse um educador autodidata pretendendo dar exemplo para aqueles que maltratavam a sua cidade sujando-a com todo tipo de lixo.
Mas como ninguém lhe perguntava nada, nada também dizia, até que de repente ninguém mais o viu. Talvez tenha morrido, pois já era idoso quando prestava esse serviço, ou quem sabe tenha desanimado de ficar dando exemplo de civilidade sem que obtivesse qualquer resultado e se retirado de seu campo de luta.
As pessoas estão se acostumando a manter a cidade limpa, mas ainda há muito a ser feito. Lembro-me que em uma das atividades do Projeto Cidade Educadora, várias entidades, professores e alunos de várias escolas, abraçamos o lago do Parque Antenor Martins para a partir de então preservarmos as nascentes e os oito riachos que cortam a nossa cidade. O abraço em si foi significativo, mas duas situações paralelas ao evento chamaram-me a atenção: havia muita gente jogando copos a esmo pelo parque, mas por outro lado pude reconhecer dois professores da UEMS caminhando e sem espalhafatos, catavam o que podiam e iam depositando aquele material jogado nos recipientes próprios que estavam espalhados pelo parque. Esses temos a absoluta convicção de que eram educadores, procurando mostrar àquela multidão que no parque se encontrava que não era correto jogar o ligo em lugar impróprio.
Bem, dois ou três homens não dão conta de mostrar essa boa prática a toda a população e muito menos de manter a cidade limpa, por isso a prefeitura de Dourados, como ocorre em todos os outros municípios brasileiros, contrata firmas especializadas em limpeza para tal trabalho, ou seja, as prefeituras terceirizam a limpeza da cidade
Homens e mulheres ocupam-se dessa função e, de acordo com o tamanho da cidade, dezenas, centenas ou milhares de trabalhadores, espalham-se diuturnamente pelas ruas, na manutenção da limpeza. São os garis, denominação que começou a ser usada no Rio de Janeiro em virtude do sobrenome do empresário francês Alfredo Gary ter sido o fundador da primeira empresa de limpeza em 1876.
Os garis, tanto quanto faxineiros, ascensoristas, cortadores de grama, são homens e mulheres invisíveis. O livro "Homens Invisíveis - Relatos de uma Humilhação Social", de Fernando Braga da Costa, mostra muito bem essa realidade. As pessoas passam, pelos garis, quase trombam, mas não os veem. Somos capazes de ver a sujeira da cidade, mas não conseguimos enxergar quem a limpa.
Pior é que esses garis, ao contrário dos exemplos de cidadãos que procuram dar exemplo, como citado acima, fazem o trabalho de limpeza para ganharem o sustento de suas famílias. São recrutados entre aqueles com menor nível de escolaridade e, por via de consequência, não obtém empregos que paguem melhor salário, que ofereçam condições mais humanizada para o trabalhador.
Atualmente, quando o nosso Congresso conservador e até reacionário, trabalha com a votação de uma Lei que permite a terceirização de todo tipo de trabalho, eis que os garis, servem-nos também como parâmetro para demonstrar que a terceirização coisa boa não é.
De qualquer forma os garis vão seguindo a vida e até ganharam um dia especial: 16 de maio é o dia dedicado aos garis. Mas quem vai lhes dar os parabéns. Sei não, mas é difícil, afinal são invisíveis e sem voz que os represente, mas e se alguém os enxergar nesse dia e os for cumprimentar, eles poderiam até mesmo oferecer uma resposta pouco agradável, afinal todo o dia é dia do gari.
E se alguém jogar essa página de jornal na rua e um gari a recolher e a ler, receba a nossa gratidão.