Harun al-Rachid tinha um vizir (ministro) no qual depositava confiança e tinha por ele grande amizade, no entanto, todo santo dia recebia queixas e ouvia críticas negativas sobre ele. O soberano viu-se em situação conflituosa, então, resolveu percorrer os seus domínios para verificar a realidade. Nos campos, as colheitas eram fartas, em seus exércitos reinava a disciplina, suas fronteiras tinham navios e soldados à disposição para prevenir eventuais invasões, enfim, por todos os lugares por onde passava ouvia elogios ao seu ministro por manter tudo em tão boa ordenança. Então, o Califa entrou em uma mesquita, ajoelhou-se e agradeceu por ter visto com os seus próprios olhos o trabalho de seu ministro e por ter ouvido o seu povo e não à sua corte corrompida pela inveja e pelo desejo de poder.
Penso que essa fábula presta-se não somente aos governantes supremos, mas aos mais modestos chefes, aos pais, aos políticos e, porque não dizer, aos jornalistas, que têm por obrigação de ofício ouvir as partes envolvidas antes de noticiar o que pode ser inverídico ou apenas meia verdade.
Por falar em políticos e jornalistas, ocorre-me uma outra fábula que vou tentar reproduzir, apesar de tê-la lido há muitos e muitos anos.
Um Califa procurava por um homem digno e sábio para empossá-lo como o seu primeiro ministro. Depois de muito pesquisar, encontrou em bairro humilde um sábio professor que lhe pareceu ser o ideal. Chamou-o ao palácio e teve com ele um rápido diálogo, que culminou com a indagação se ele tinha algum inimigo. Perplexo, o humilde professor respondeu que ficaria honrado em ser o primeiro ministro, mas que se a condição fosse ter algum inimigo, ele não poderia aceitar pois jamais tivera um. Então, o Califa lhe disse que esperaria durante 24 horas e que, se aparece alguém que fosse seu inimigo ele lhe daria o cargo.
Chateado por perder tão importante cargo, o professor contou toda a sua história à esposa que, imediatamente, arrumou uma solução simples e somente pediu ao marido que ficasse tranquilo e aguardasse o dia seguinte pois, com certeza, ele seria o primeiro vizir.
Saiu então a mulher pelas vizinhas e sem disfarçar a alegria, espalhou para quem a pudesse ouvir que o seu marido seria o primeiro vizir do califado. Acertou na mosca do alvo. No outro dia, eram tantas as intrigas contadas ao califa que, percebendo a maldade dos caluniadores, chamou o professor e o nomeou.
Ambas as fábulas convergem para uma única conclusão. Se somos lembrados para um cargo importante, somos imediatamente bombardeados, por sua vez, se deixamos de ocupar um cargo relevante, não faltam inimigos para nos sepultar. É lamentável que a sociedade tenha evoluído tanto nos aspectos científico e tecnológico e caminhado tão lentamente na evolução social.
Lembro-me de quando, dez anos atrás, foi implantada a UFGD e o professor Damião era o indicado para ocupar o cargo de reitor. Não faltou político inescrupuloso que tivesse lançado o meu nome como concorrente para que houvesse uma ruptura entre nós e um terceiro nome fosse o indicado.
Agora, no momento em que o professor Damião deixa a reitoria, mais uma vez um político inescrupuloso lança farpas contra a sua administração e, pior, sempre tem um colunista pronto a repercutir maldades. Claro que o professor Damião é uma das figuras proeminentes do PT local, tem uma história de vida e fez uma administração tão exemplar que poderia muito bem vir a ser o nosso candidato à prefeitura. Teríamos um concorrente digno, honesto, conhecedor de gestão pública, enfim, a verdade é que os ataques são por simples prevenção.
Em relação à devolução de uma verba em torno de 12 milhões que seria para a construção do hospital da mulher, qualquer administrador minimamente sério a teria devolvido, pois que a obra idealizada por um deputado ficaria em 60 milhões e ele conseguiu uma emenda de 12 milhões. De onde viriam os 48 milhões restantes? Somente um irresponsável iniciaria uma obra dessa envergadura para depois ser criticado por não a concluir. Melhor ser criticado por ter sido sério e devolvido a emenda do esperto deputado do que ter que responder por improbidade administrativa.
É assim mesmo, administrações inseguras, em primeiro lugar, criticam o antecessor e depois põe a culpa em falta de verbas.