Linda, intrigante e inalcançável, obra que mantenho em minha cabeceira, “As Cidades Invisíveis”, de Itálo Calvino, ensinou-me dentre muitas outras coisas que “quem comanda a narrativa são os ouvidos”. Significa dizer que as pessoas “ouvem”, de uma conferência, de um discurso político ou mesmo de uma trivial conversa entre amigos, aquilo que lhes interessa. Talvez isso queira dizer que as pessoas atualmente possuam opinião formada, ao contrário de Raul Seixas que preferia ser uma metamorfose ambulante do que ter opinião formada sobre tudo.
Particularmente estou concluindo que dos textos escritos as pessoas também apreendem apenas aquilo com o que concordam, sem se darem ao trabalho de pensar sobre o que está realmente escrito. Sinto isso quando recebo críticas às minhas crônicas e percebo que as pessoas pularam um trecho ou ficaram pensando que defendo corruptos, quando na verdade defendo uma justiça equânime.
Tirando-se desse contexto o leitor crítico, que sabe distinguir as coisas, a verdade é que formam-se dentro da sociedade grupos distintos que possuem uma visão alienada, ou seja, não conseguem ler o mundo ou têm uma visão parcial daquilo que ocorre no dia-a-dia. Isso acontece com a esquerda, mas em especial com a direita, porque a esquerda para tentar mudanças sociais tem que estudar criteriosamente a sociedade, enquanto que a direita, justamente por não desejar mudanças, ocupa-se em camuflar a realidade.
No dia 20, quinta-feira passada, a esquerda brasileira resolveu convocar, ela também, manifestações, essas de apoio à democracia e contra o impedimento da presidente, expondo cartazes alusivos à democracia e o respeito às instituições. Não vi nos cartazes ofensas pessoais, ao contrário das asneiras praticadas quanto houve a manifestação de domingo passado, 16 de agosto. Nessa, nas redes sociais, foram postados dezenas de cartazes de causar vergonha. “Dilma, pena que não te enforcaram no DOI-CODE”, “SOS Forças Armadas”, são exemplos da falta de civilidade e de conhecimento histórico. Isso incita o ódio e quem pede a volta da ditatura militar deveria ser preso, porque em última análise está defendendo a tortura, a inconstitucionalidade, a irracionalidade de mandar matar e esquartejar. Sem contar que houve um grupo defendendo o integralismo, um misto de fascismo e nazismo. E sem dizer de certas infâmias, como “brasileiros adoram Deus, o PT adora Satanás”
Mas, o absurdo foi a entrevista de um cidadão que bradou que os petistas são todos bastardos. Ora, não bastavam aqueles que acusavam os petistas (indiscriminadamente) de corruptos de ímprobos, de comunistas, agora são também bastardos? A lógica desse senhor é a de que os petistas históricos foram mortos ou condenados pela ditadura, portanto os petistas atuais foram criados sem pais e sendo criados sem pais não têm uma formação correta, ao contrário, não aprenderam a respeitar e por isso hoje não respeitam mais nada.
Essa entrevista ganha até daquele cartaz que anunciava que “Cunha é corrupto, mas é nosso”.
Virou esculhambação. A extrema direita e entre ela os neofascistas, aproveitam-se de um momento de crise econômica para detonarem uma crise política com precedentes semelhantes na história do Brasil e que sempre resultou em prejuízo.
Enquanto isso Merkel, 7 ministros e comitiva visitam o Brasil para estreitar relações bilaterais. A anglo-holandesa Unilever, chega para investir 1 bilhão. Por sua vez uma ideia que foi discutida desde o período imperial, tornou-se projeto em 2007 e agora, em 2015 torna-se realidade com o acionamento das bombas de Cabrobó, abrindo as comportas que desvia o Rio São Francisco para tirar do sofrimento com a seca cerca de 6 milhões de nordestinos. E no pré-sal o milhão de barris diários está próximo de ser realidade para tornar o Brasil a “Pátria Educadora”, promessa da presidente que, ao lado de tantos outros projetos, transformara o Brasil em um país mais justo. Já não digo mais fraterno, pois o ódio disseminado nesses últimos anos pela direita golpista e pelo Partido da Imprensa Golpista já não fazem do brasileiro o homem cordial descrito por Sérgio Buarque de Holanda. O mito caiu, no momento em que surgiu a esperança de um Brasil mais igual, onde os trabalhadores pudessem ascender à dignidade de cidadãos e não de seres explorados pelo capitalismo perverso.