Escrevi no livro Edificando a nossa Cidade Educadora que “sou migrante, geográfico, cibernético, internáutico. E mais: “migrante é o que tem coração para partir. Não teme o novo e o desconhecido. Sua busca chama-se esperança. Sua conquista certa é a saudade”.
Mas o migrante é muito mais além disso: é o injustiçado pela distribuição da renda, é o perseguido por tiranias ainda existentes em várias partes do mundo, é enfim o excluído, seja pela pobreza, seja pela violência de governos incapazes de agir sem ódio. A migração, ou seja, essa mobilidade humana pelo mundo, existe desde o surgimento do homem, provavelmente na África, se o autoctonismo não provar o contrário. Da África os humanos teriam se espalhado pela Europa e Ásia, de onde migraram para as Américas. Essas migrações davam-se especialmente por crises climáticas que obrigavam os deslocamentos. No período posterior à implantação do cristianismo, as migrações de povos bárbaros pela Europa, fragmentou o Império Romano, já em crise interna, e deu os contornos à configuração dos Estados Modernos (Portugal, Espanha, França, Alemanha, Inglaterra), todos separados do Império por força das migrações, inicialmente pacíficas, depois armadas. Com o “descobrimento” da América, o fluxo de migrantes europeus atraídos pela ganância foi impressionante. Depois, no final do século 19 e início do 20, populações ameaçadas pela pobreza ou pelas guerras, aportaram às Américas, especialmente ao Brasil, necessitado de mão de obra, pois havia libertado os escravos. Agora, no Terceiro Milênio, não seriam necessárias migrações por questão alguma, mas assistimos a nova onda. Quer dizer, a humanidade ainda não conseguiu organizar-se de forma mais justa e pacífica. A imagem de Alan Kurdi, o menino Sírio de 3 anos que morreu afogado pode ter impressionado, mas logo será esquecida. “O dinheiro, é o esterco do diabo” disse o Papa Francisco, e Fernando Brito afirma que parece que se tornou mesmo, a ponto de na Austrália, o governo indicar que as “escolas substituam as disciplinas de História e Geografia por Programação de Softwares”. E conclui Brito, que o governo está fazendo “as escolas se tornarem ‘startups’ (empresas de investimentos) de uma humanidade estúpida – se é que se pode chamar de humanidade a uma fauna imbecilizada – incapaz de reconhecer qualquer coisa que não seja dinheiro, tanto que este se torna dono dela, em lugar de ser o contrário”. Essa gana pelo lucro e a imbecilidade das guerras fraticidas engendram as migrações atuais. Mais de 300 mil refugiados da fome e da guerra já chegaram à Europa neste ano. Dois mil e quinhentos morreram na travessia do Mediterrâneo. Síria, Afeganistão Eritréia, Senegal, Mali, Guiné e Gambia são os maiores causadores das emigrações. Nas Américas o campeão de emigrantes é o Haiti, principalmente depois do terremoto de 2010 que castigou ainda mais aquele país já tão sofrido pela miserabilidade. Óbvio que os emigrantes procuram países mais ricos para se instalarem, no entanto, a Grécia, que vive intensa crise econômica, dada a sua posição geográfica, tem recebido resignadamente milhares de refugiados. A Europa debate-se para encontrar soluções para acomodar tanta gente, e até acha bom receber mão de obra barata, mas não procura o âmago da questão. Não ataca as causas. De qualquer forma é louvável o esforço europeu e muito mais ainda a atitude de 11 mil islandeses que colocaram as suas casas à disposição para abrigar os que para lá se dirigem. O Brasil também tem recebido bem os que chegam em busca de uma vida melhor, salvo um ou outro exemplo de xenofobia (também existente na Europa). Haitianos (mais de 130 mil), bolivianos e senegaleses são empregados e amparados. Em Santa Catarina o time do Avaí deu exemplo de compreensão e solidariedade humana ao afirmar: “Pode um ser humano ser menos humano que outro? No passado, recebemos milhares de imigrantes em Santa Catarina. Principalmente alemães e italianos. E eles também foram alvo de preconceitos. É a nossa vez de contar uma história diferente” A solução para a migração não é construir muros como se fez nos Estados Unidos, onde 11 milhões de pessoas vivem em situação irregular, mas edificar uma sociedade mais justa, mais fraterna, mais igual.