Gafes acontecem na vida de todos. Quem já não cometeu alguma? Só depois de muita experiência é que aprendemos, por exemplo, que não devemos sequer fazer perguntas, mesmo que discretas, a conhecidos. Até perguntas simples: como vai o seu marido, ou sua esposa podem redundar em gafe, pois o “casa e separa” dos dias atuais é crescente.
Mas as gafes não acontecem apenas com pessoas comuns, elas ocorrem com prefeitos, governadores e presidentes. Quem não se lembra do falecido Ari Artuzi que prometeu fazer os postos de saúde funcionar 24 horas por dia, inclusive à noite? E quando FHC, então candidato à prefeitura de São Paulo, sentou-se na cadeira do prefeito antes de ser eleito e, tendo perdido a eleição, passou pelo dissabor de ver Jânio Quadros dedetizando a cadeira, quando de sua posse? Em relação ao presidente da república, a última gafe ocorreu na China quando um empresário se equivocou e referiu-se ao presidente brasileiro nominando-o de “Fora Temer”.
Imagine o caro leitor a cena: Temer saboreando ainda da alegria que o golpe lhe proporcionou, mas enojado de ver e ouvir tanto “Fora Temer” no Brasil, na América e na Europa, imaginava, com toda a certeza, que na China estaria livre dessa pecha. Não é que o empresário imaginou que o seu nome seria “Fora Temer”?
De volta à realidade brasileira as vaias não são simplesmente a gafe de um chinês desavisado, são realidade nua e crua. Em 4 de setembro, em torno de 100 mil pessoas clamaram pelo “Fora Temer” na Av. Paulista. No dia em que comemoramos nossa Independência, no 7 de setembro, calcula-se que mais de 200 mil pessoas participaram em várias cidades com um “Fora Temer”, aos quais se acrescentaram as sonoras vaias recebidas no desfile em Brasília e na abertura das paraolimpíadas.
O golpe paraguaio aplicado no presidente Lugo foi mais tranquilo, no Brasil a resistência se faz sentir intensamente, não somente por ter sido deposta uma presidente honesta à qual imputou-se crime de responsabilidade, mas também pelas medidas iniciais tomadas pelo governo, bem como pelos seus projetos. Isso tudo sem contar as gafes de seus ministros, obrigados frequentemente a desdizerem em pé àquilo que haviam acabado de falar quando sentados. E que dizer do próprio presidente deixando-se fotografar comprando sapato chinês? Sapato de presidente também estraga, mas ele deveria ter mandado alguém comprar-lhe um novo par ao invés de fazer marketing justamente para a maior concorrente brasileira no setor calçadista. Lula, em passado recente, ingressou ao menos duas vezes com representação junto à Organização Mundial do Comércio, OMC, objetivando proteger a indústria de calçados brasileira em relação à chinesa e obteve sucesso.
Mas nem tudo são gafes. Com o golpe que derrubou Dilma, não ascendeu ao poder apenas e simplesmente um grupo novo de dirigentes, assumiu o poder uma velha proposta de governança, voltou ao poder o neoliberalismo. Embora seja sabido, não custa repetir, Lula e Dilma governaram tendo por princípio o estado de bem-estar social, concepção criada pelo economista Keynes, fundamentada no princípio de que o Estado devia interferir na economia, promovendo por via de consequência, mais igualdade. No neoliberalismo, gerado no chamado Consenso de Washington, prega-se o “estado mínimo”, volta-se ao tempo de FHC, tempo de privatizações do patrimônio público, sucateamento das universidades públicas, terceirização dos servidores públicos e de funcionários de grandes empresas, enfim, o mercado é que teoricamente regularia a sociedade por meio da lei da oferta e procura. Ocorre que está mais do que provado que o mercado jamais conseguiu isso sozinho, sempre houve necessidade de governos que se pusessem ao seu lado. Temos então, na prática, governo e empresariado em geral contra a classe trabalhadora.
Ocorre, no entanto, que a classe trabalhadora já teve essa guilhotina sobre seu pescoço e já sabe muito bem do mal que essa política neoliberal é capaz de fazer. Portanto, não só pelo golpe de estado em si, mas pelas suas consequências é que os movimentos sociais estão movimentando-se e teremos em breve o aumento das greves, das ocupações de terras, fechamentos de rodovias, enfim, uma resistência à qual o governo Temer provavelmente não resistira.