Lendo a obra do Dr. Eudes Fernando Leite, professor da UFGD (Aquidauna: a baioneta, a toga e a utopia nos entremeios de uma pretensa revolução) constatei que em Aquidauana a implantação da Ditadura Militar não ocorreu de forma diferente da de outras cidades do interior brasileiro. Não me surpreendi com a existência de delações, prisões, Inquéritos Policiais Militares, nem me surpreendi também com a técnica da elite em espalhar justificativas para essas ações, a não ser por um detalhe: os latifundiários aquidauanenses espalharam que os “comunistas” iam pintar a Igreja de vermelho e transformá-la em prostíbulo. Esse engodo, que suponho inédito no Brasil, colocou a população contra aqueles que defendiam as reformas de base propostas pelo governo João Goulart.
Esse exemplo confirma a tese de que a classe dominante usa de todos os artifícios possíveis para mistificar a classe trabalhadora. Em 1964, o principal embuste utilizado foi o “perigo comunista”. Essa falácia, fruto da Guerra Fria, foi arquitetada nos Estados Unidos e virou uma doutrina: a Doutrina da Segurança Nacional, que provocou ditaduras militares em grande parte dos países da América Latina. Logo após o declínio das ditaduras, aproveitando-se da queda do Muro de Berlim em 1989, os Estados Unidos arquitetaram uma forma de domínio mais sutil: o “Consenso de Washington”, que implicou na implantação da política neoliberal, desgraçando com a classe trabalhadora e com a economia de países como o Uruguai, Argentina, Chile e Brasil. Nos dias atuais, não duvido que os Estados Unidos também estejam por trás da implantação desse novo tipo de ditadura jurídico-mediática na América do Sul, de modo exacerbado no Brasil. Poderia acrescentar legislativa, mas ao que tudo indica, o Legislativo foi excluído do golpe no momento em que um juiz de primeira instância interferiu no Legislativo mandando prender policiais legislativos.
Felizmente o Supremo já corrigiu esse ato falho, no entanto, o que está ocorrendo no Brasil é simplesmente o início de uma nova ditadura, algo que tem sido chamado de “lawfare” ou seja, "o uso da lei como uma arma de guerra". Estudantes que ocupam mais de mil escolas brasileiras são incriminados, chegando-se ao absurdo de um juiz de Tocantins mandar algemá-los.
E a história se repete, em forma de farsa. Os mesmos que lamberam as botas dos militares se alvoram agora, nas rádios e jornais, em defender a reforma da educação por medida provisória, a PEC 241 e tantas outras medidas do governo golpista. Da mesma forma que em 1964, a classe dominante esmera-se na busca de argumentos mistificadores. Chegam a inverter as posições, acusando a esquerda se usar os métodos nazistas de Goebells, quando na verdade ocorre justamente o contrário. Para mistificar o povo mentem mil vezes, replicando as orientações diretas ou subliminares da mídia golpista comandada pela Globo, Folha e Estadão.
Mas eis que surgem as Carina(s), presidente da UNE, colocando-se contra o golpe e as Ana Júlia(s), corajosa estudante paranaense de 16 anos que usou a tribuna da Assembleia Legislativa do Paraná, perguntando aos deputados “a quem pertence a escola?” e acusando-os frontalmente de serem também responsáveis pela situação precária da Educação. Atacou ainda o movimento nazista do MBL (Movimento Brasil Livre) e defendeu os direitos legitimados pela Constituição Cidadã de 1988. É interrompida e quase calada pelo presidente da Assembleia, mas sabiamente desculpa-se para poder continuar falando.
Carina e Ana Júlia representam a juventude formada pela democracia que vigora no Brasil desde 1985. São capazes de enfrentar um governo que retira do currículo as disciplinas que levam o cidadão a pensar. São jovens que reagem a decisões como a que concede generosos aumentos às categorias indispensáveis à manutenção da “ordem” e da arrecadação de impostos e relega os demais servidores públicos e a população brasileira a 20 anos de servidão. Tudo em benefício do capital estrangeiro, dos rentistas que têm 3 trilhões aplicados no Tesouro a juros de 14%, enfim, da classe dominante que não suporta mais pensar em um país mais igual. Matou o que estava nascendo.
Ana Julia(s) são as Dilma(s) de 1964, talvez apenas algemadas, como as meninas de Tocantins, não presas e torturadas.