Por volta de 2000 passei por Itápolis e visitei o Instituto de Educação Valentim Gentil, onde cursei as primeiras séries escolares. A escola era a mesma, embora lhe coubesse bem uma nova pintura e uma boa reforma no anfiteatro. De qualquer forma era a “minha escola”, a primeira, de outras escolas que tive, e ainda as tenho, bem guardadas na memória: Escola Nicola Mastrocola, Instituto Barão do Rio Branco, Faculdade de Filosofia Ciência e Letras de Catanduva, Universidade de São Paulo. “Minhas escolas”, escolas de milhares de cidadãos que as frequentaram em determinados momentos de suas vidas, mas possuindo-as para sempre. Significa dizer que a “minha escola” não é do Estado, é a escola do povo, que concede ao governo o privilégio de administra-las.
Dona Eni naquele dia não estava acompanhada de Dona Maria do Carmo, uma educadora que colocava em prática, já em 1954, um novo método de alfabetização. “Guardem o material” disse ela e logo em seguida pediu para que lhe emprestassem um lápis vermelho. Lápis grosso, quase meia polegada, o único lápis colorido que usávamos. Ágil e solicito emprestei-lhe o lápis que depois de utilizado foi depositado em minha carteira. De repente Dona Eni mete o lápis em minha cabeça, ao mesmo tempo em que perguntava: “Não mandei guardar o material? Injustiça, mas não suficiente para que eu perdesse o amor pela minha primeira professora e pela minha escola.
Àquela época não haviam escolas particulares nas cidades interioranas. Estudavam na mesma sala os filhos dos pedreiros, dos lavradores, dos médicos, dos juízes, do prefeito. As duas classes sociais, a dos trabalhadores e a dominante, punham os seus filhos a conviverem juntos, a conhecerem-se e respeitarem-se. Quer dizer que a “minha escola” era a escola dos pobres e dos ricos, talvez por isso fosse bem cuidada.
Um amigo dizia que “antigamente a escola era risonha e franca e hoje é falsa e chorosa”, isso lá pelos anos de 1960, mas quando ingressei no Ginásio (5º ano) a “minha escola” não era lá muito risonha, poderia até ser franca, mas rigorosa. Os alunos também eram durões, quando o professor(a) não dava conta de descobrir uma descompostura chamava o inspetor e, no limite, vinha o diretor para a sala de aula. “Quem foi?” Às vezes o autor levantava a mão e ia acertar-se na diretoria, mas na maioria das vezes o silêncio era total. O diretor ameaçava a classe inteira, mas ninguém acusava. Vivíamos uma época em que os alcaguetes, os dedos-duros, eram mal vistos, as delações eram indignas. A classe chegou a ser suspensa por três dias, no entanto o coletivo pagou pelo individual. Provavelmente porque a “malcriação” tenha sido um protesto justo contra o rigor excessivo.
O rigor da escola expulsava muitos alunos, no entanto os órgãos oficiais chamavam a isso de evasão escolar. Mas mesmo os evadidos, conheço alguns, reconhecem naquela que os expulsou “sua escola”. Imagine os que conseguiram ascender por meio da Educação?
Com o tempo nasceram as escolas particulares, primeiro, pasmem, para abrigar os alunos que não conseguiam ingressar nas Escolas Públicas, depois para acolher os filhos da classe dominante e da “classe média”. A partir de então a escola pública, a escola dos pobres, foi sendo abandonada e, como disse um deputado paulista, “quem quer estudar pague”.
Essa frase, que sintetiza o modo de atuação dos governos neoliberais, explica o movimento de ocupação de mais de mil escolas públicas, especialmente nos estados governados pelo PSDB. Ocupações em protesto às medidas governamentais antipopulares, especialmente em relação à PEC 241, agora PEC 55 no senado. Se o neoliberalismo fosse melhor compreendido pelo povo não teria havido a vitória da direita nas últimas eleições, não haveria ocupações das “minhas, das nossas escolas”. Mas isso faz parte da democracia, o que assusta é um juiz dar ordem para cortar água, luz, gás e comida de uma escola ocupada e ainda ordenar para que fossem usados instrumentos sonoros para impedir o sono dos alunos.
Como disse Fernando Brito, se a PM conseguiu desocupar pacificamente uma escola e um juiz dá uma ordem dessas, há algo errado com a Justiça. Ou será que a presidente do Supremo, Carmem Lúcia, nos permitiria chamar esse juiz de “juizeco”, isentando assim a Justiça como um todo?