Para dessonar // E ver a noite encompridar-se um tanto // Para não ter que levantar-me antes das estrelas se apagarem // Li o “Livro sobre o nada” de Manoel de Barros // Desemburreci um pouco e concordei com ele // Só a poesia é verdadeira // Mas como não consigo versalisar o cotidiano, buscando nele a verdade mais profunda // consolo-me em escrever crônicas // a filha pobre da literatura // apegando-me a fatos reais, interpretados segundo a minha formação ideológica.
Quarta-feira passada assisti a vídeos mostrando alunos paranaenses em Brasília, tentando dialogar com senadores sobre a Reforma do Ensino Médio, mas ao invés de serem tratados como futuros profissionais, edificadores de um Brasil cada vez melhor, foram recebidos com spray de pimenta.
Aos leitores que comungam comigo, aos que leem no mesmo breviário desejo dizer com Mercedes Soza: “Que vivan los estudiantes // Jardín de nuestra alegría // Son aves que no se asustan // De animal ni policía // Y no le asustan las balas // Ni el ladrar de la jauría // Caramba y zamba la cosa // ¡Qué viva la astronomía! // Me gustan los estudiantes // Que rugen como los vientos...”
Os que defendem o governo golpista que domina o Brasil, ao ver os estudantes defendendo direitos e gritando, que “eu luto, eu morro, pela Educação” hão de dizer que são uma minoria desocupada, mas eu lhes digo: constituem-se em uma vanguarda que enxerga além da curva. Não revidaram com violência, diziam aos policiais apenas “desejamos que os filhos de vocês não passem por isso”. Os estudantes não são contrários à Reforma do Ensino, o Mundo muda e o ensino tem que mudar também, mas a reforma ora proposta apresenta grosserias insustentáveis:
O primeiro ponto é que não se faz reforma de ensino com medida provisória. Isso é autoritarismo. As reformas devem ser elaboradas por profissionais altamente capacitados para tal e o ministro da educação ao invés de ouvir especialistas preferiu dar ouvidos a um grupo de leigos capitaneados por Alexandre Frota.
Segundo: a retirada de Filosofia, Artes e Sociologia, tornando-as disciplinas optativas que jamais serão ministradas, empobrece o pensamento crítico, conduz o aluno à alienação. Também será facultativa a Educação Física, uma perda duplamente prejudicial porque está provado que o aluno que pratica exercícios físicos tem mais capacidade para o aprendizado e também porque se levarmos em conta os países que se destacam nas Olimpíadas veremos que desde a infância a escola incentiva a Educação Física.
Terceiro: a Medida Provisória dispõe que a escola poderá contratar professores com “notório saber”, ou seja, não haverá obrigatoriedade de se ter em salas de aulas professores graduados para o exercício do magistério. Por exemplo: um advogado poderá dar aulas de Ética, um administrador de empresas poderá dar aulas de matemática e assim por diante. Ou seja, a Educação passará a ser um bico para profissionais de quaisquer áreas que queiram complementar seus ganhos.
Quarto: dirão os defensores da Medida Provisória que os alunos poderão escolher escolas que ofereçam as disciplinas cortadas, mas esquecem-se de que os alunos das escolas públicas são matriculados em escolas próximas às suas casas, portanto, podem, mas não conseguem escolher.
Quinto: A progressão dos alunos de uma para outra série será continuada. Significa dizer que ninguém repete, mesmo que chegue à Universidade sem saber sequer ler.
Sexto: quanto à implantação do ensino integral, seria ótimo, necessário, já é passado o tempo, pois a Lei não permite que jovens com menos de 16 anos trabalhem, no entanto não lhes é proporcionado o ensino, como deveria acontecer. Ocorre que a implantação do ensino integral não é imediata, não tem prazo. Fala-se em estabelecer a meta de 5%. Para quando? Para onde?
Quer dizer que os estudantes, esses jovens formados no curto período democrático em que vivemos desde 1985 até o golpe de Temer, estão cobertos de razão ao ocuparem pacificamente escolas e posicionarem-se contra a reforma do ensino por medida provisória e colocarem-se contra a PEC 55. Sabem eles que por trás dessas medidas existe o claro objetivo de privatizar o ensino e entregar o patrimônio público ao capital estrangeiro.
Trump não faria melhor, mas ao menos foi eleito.