Nesses tempos cinzentos, quando perdemos até mesmo a capacidade para cuidarmos de um simples jogo de futebol e admitimos torcida única, desejo dedicar essa crônica aos desesperançados com a situação atual, objetivando recuperarmos a fé na construção de um Brasil melhor, com mudanças nesse cenário.
Vou (re)contar-lhes uma fábula, sobre a qual já escrevi em novembro de 2010, enfatizando que as fábulas e parábolas foram muito mais amplamente utilizadas entre os povos quando a escrita era ainda pouco difundida e a cultura transmitida oralmente. À sombra das caravanas nos desertos árabes, dos salgueiros orientais ou das oliveiras europeias, nas estepes russas ou savanas africanas, essas histórias tinham quase sempre um fundo moral educativo. Creio, no entanto que ainda hoje elas podem muito bem serem adequadas ao aprendizado. Parece-nos oportuna a lembrança de uma dessas fábulas e me permita o leitor que a transmita resumidamente e sem os nomes dos personagens uma vez que se vão longos e longos anos desde que a li em livro de Malba Tahan.
Um homem fazia sua plantação em pleno deserto. Imagine o leitor alguém plantando na areia, no deserto da Arábia? Mas lá estava aquele homem e eis que por aquele local passa uma caravana com destino a Bagdá. O xeique, comandante daquela expedição, que jamais vira algo igual em toda a sua vida, não resistiu à curiosidade em saber o que aquele homem plantava. Claro que não escondeu a sua surpresa ao ouvir aquele ser solitário responder-lhe que plantava espinhos.
Ora, já seria maluquice plantar qualquer coisa no deserto, imagine espinhos? Então o xeique, mesmo já tendo formado juízo de que se tratava de um louco, quis saber, talvez para se divertir, como aquele homem comercializaria os espinhos de sua plantação.
- Não colherei espinhos, disse o estranho agricultor. Planto-os porque por aqui de vez em quando passa uma caravana, como está ocorrendo agora e pode acontecer de ter nessa caravana um camelo tonto, então esse camelo poderá cair perto dos espinheiros, e pode ser que o fardo de algodão que esse camelo carrega se rompa e que o vento leve o algodão para o espinheiro que o reterá. Então catarei o algodão e o venderei.
Os caravaneiros seguiram viagem rindo, mas ao mesmo tempo impressionados com aquela cena. E de tal forma ficaram impressionados que dias depois, o próprio xeique, em audiência com o Califa – Harun Al Rachid, se a memória não me falha - não resistiu em contar-lhe aquele inusitado encontro com o plantador de espinhos. O Califa ouviu atentamente e ficou tão curioso com aquela história que mandou buscar imediatamente o excêntrico homem, plantador de espinhos, para entrevistá-lo. Desejava saber se se tratava de um louco qualquer, um débil, ou se aquela inusitada atitude representava alguma experiência nova.
Tão logo chegou, o plantador de espinhos foi conduzido ao palácio e expôs ao califa a sua atitude dizendo-lhe que era um homem muito inconstante, que tudo o que iniciava na vida logo largava, que nada dava certo para ele e que então se propusera a essa difícil, quase impossível tarefa. Isso era para ele uma (re)educação, uma forma de resistir à sua falta de persistência com as suas obrigações, portanto levaria a cabo esse projeto para o seu próprio bem.
Harun Al Rachid, que enfrentava sérios problemas com obras inacabadas, viu nesse homem persistente a pessoa indicada para ser o prefeito de Bagdá. Então, logo o nomeou e, de fato, acertou em cheio, pois durante todo o tempo em que o plantador de espinhos esteve à frente da prefeitura de Bagdá, todas as obras eram em primeiro lugar muito bem planejadas para depois serem iniciadas e nunca ocorreu que uma delas fosse abandonada sem conclusão.
Não é uma bonita e oportuna fábula? Diante de tantos desmandos, de tanta corrupção, de tantas obras inacabadas, diante do sucateamento da educação, da saúde pública e da retirada dos direitos dos trabalhadores e do retorno da privatização de nosso patrimônio (a exemplo do que se quer fazer com a SANESUL), não está chegada a hora de começarmos a nossa plantação de espinhos, persistindo e recuperando a nossa voz de cidadãos, roubada por governantes e por alguns meios de comunicação que insistem em nos engambelar com noticiários omissos ou falaciosos?