Também reformas constitucionais feitas a toque de caixa, sem debates mais longos e serenos, podem provocar consequências nefastas, afetar não somente os contemporâneos, mas gerações futuras. É exatamente o que poderá vir a ser se for concretizada a reforma da previdência. Além das perdas para quem hoje trabalha, os jovens das próximas gerações terão menos oportunidades de empregos, formando um exército de reserva que barateará o custo da mão de obra, levando o Brasil a ocupar o primeiro lugar no ranking dos mais baixos salários do mundo. Felizmente posso estar enganado: o historiador não é profeta, {estudamos o passado para compreender melhor o presente e ter visão do futuro (Collingwood)}. De qualquer forma haverá um choque entre as intenções do governo neoliberal e o clamor popular demonstrado nas grandiosas manifestações efetivadas em todo o país nessa semana que se encerra.
Como a reforma que se pretende é uma volta ao passado, busquei também no passado parte dessa crônica publicada em 16 de maio de 1998. Personagens fictícias, escancaram os efeitos reais da tentativa do governo FHC em elevar para 65 anos a idade mínima para aposentadorias. O que ele não conseguiu Temer tenta agora, e mesmo que a reforma não passe integralmente, será dado um novo passo para atingir a classe trabalhadora. Com certeza o atual governo está na contramão da história.
Mas vamos à crônica de 1998, tempo em que os trabalhadores ainda cortavam a cana queimada. Por incrível que possa parecer, anos atrás, praticamente não existiam as escolas particulares, a pública era frequentada por pobres e ricos. Foi o caso de Guerino e Stefano que se sentavam sempre nas primeiras carteiras e vieram-me à lembrança como paradigmas perfeitos para mostrar como uns podem ser bem-sucedidos e outros não. Atentos e estudiosos, disputavam, ao menos nos dois primeiros anos escolares, as melhores notas. Depois, Guerino foi decaindo, suas notas eram cada vez mais baixas e só conseguiu o diploma do quarto ano porque colou; quero crer que com a complacência da professora. Desistiu, abandonou tudo para ser cortador de cana.
Stéfano, fruto da “classe média”, ao contrário, continuou firme em seus estudos, concluiu o primeiro e segundo graus (ginasial e científico, como eram chamados na época), seguiu para o Rio de Janeiro e hoje, para encurtar a história, tem dependurada, em frente de seu consultório, uma bela placa de bronze onde se lê: “Dr. Stéfano: urologista”.
Guerino morreu. Mal tinha completado quarenta e sete anos. Ironicamente, a idade média de vida dos cortadores de cana. E ele foi logo morrer com essa idade para confirmar a estatística. Parece que levara uma vida muito desregrada. Levantar cedo, vá lá, era próprio da profissão, mas não precisava ir dormir tarde, e ainda com a cara cheia de cachaça. Ouvi dizer que às 5hs. da manhã, quando encostava no ponto do caminhão que o levava ao canavial, ao invés de dirigir-se ao bar do Abílio para tomar um café com leite, pedia um lavrado de pinga. Dizia que era para calibrar.
Morreu sem sequer esperar pela reforma da Previdência que, se aprovada, levará o trabalhador brasileiro a aposentar-se com 65 anos. Faltariam dezoito para o Guerino. Não sei porque tem gente, como ele, que escolhe ser cortador de cana e opta por tomar cachaça às cinco da matina.
Vivi apenas até os sete anos de idade na roça, mas lembro-me bem dos cafezais em flor de propriedade de Felice Biasotto, meu bisavô. Segundo pesquisa recente constatei que eram 80 mil pés, uma riqueza fantástica perdida provavelmente com a crise de 1929/30 e que levou muitos cafeicultores ao suicídio, não ele, um forte. Tamanha perda levou filhos e netos, duas gerações, ao empobrecimento. Conto isso porque não foi um fato singular, milhares de brasileiros, proprietários e colonos, sofreram as consequências que provocaram um êxodo rural intenso, em parte resolvido pela industrialização promovida por Vargas, depois Juscelino Kubistchek. Mas não só crises econômico-financeiras, familiares ou de abrangência nacional, provocam rupturas. As ditaduras, os regimes de exceção em geral, a prática de políticas econômicas, que geram verdadeiro apartheid social, é responsável por gerações “perdidas”. A ausência de jovens na política após o golpe de 64, é um exemplo recente.