Voltando aos tempos imperiais, e também na época em que o Brasil era colônia portuguesa, narro uma história conhecida. Mas, como diziam os latinos, a repetição é mestra, é mãe, do saber (repetitio est mater studiorum). Àquela época pagava-se a quinta parte do ouro para Portugal, o quinto, de onde surgiu a expressão que o ouro ia para os quintos dos infernos. Os garimpeiros, para sonegar o quinto, mandavam esculpir santos ocados em madeira onde escondiam o ouro para ser contrabandeado. Mas, enfim, contrabando, sonegação e corrupção são velhas amigas, caminham juntas. Não começou com o mensalão tucano, ou com o petista, nem com a Petrobrás e muito menos com a quadrilha que hoje governa o pais, se forem comprovadas as delações premiadas (com a absurda redução de penas acima de 100 anos para a liberdade pura e simples, como o caso do doleiro Alberto Youssef, conhecido desde o escândalo do Banestado). Realço que fica muito longe de mim defender a corrupção, mesmo sabendo que é mais antiga do que a traição de Judas, que vendeu Jesus Cristo por trinta moedas. Ela pode ser melhor controlada em alguns países, mas a sua extinção é absolutamente improvável.
Quer dizer que são inverdades maldosas muitas das declarações feitas por alguns internautas sobre corrupção e, repito, não se trata de ignorância dos fatos. É negação da história, falta de caráter. Quando criança, ai de mim se contasse uma mentira, pequenina que fosse. Minha avó dizia-me que “um mentiroso é um ladrão”. Aprendi a dizer a verdade, embora ideologicamente as minhas verdades possam não ser necessariamente a verdade de outros. Mas a verdade objetiva às vezes é doída, na época em que trabalhei na prefeitura, recebia várias comissões de bairros. As pessoas desejavam saber se o asfalto chegaria conforme lhes anunciava um deputado e se dependia somente de pequeno esforço da prefeitura. Não, dizia-lhes não dependia apenas de verbas municipais e não havia emenda parlamentar que garantisse recursos federais. E uma vez que uma senhora pedalou uns dez quilômetros com uma criança sentada no cano, para pedir-me um bujão de gás? Disse-lhe que isso não era trabalho para vereador. Entrei para casa quase chorando, por ver a pobreza e a decepção estampada em seu rosto. Mas disse-lhe a verdade e não me arrependo.
Se são intoleráveis as mentiras de um cidadão comum, que dizer as de um ente público, de um presidente da República?
Na última quinta-feira assisti parte da entrevista que o interino Michel Temer concedeu a Roberto D’Ávila e, não obstante as perguntas se prestassem mais a permitir a propaganda dos programas do governo, as respostas escamoteavam a realidade. Mentiras, meias verdades e subterfúgios foram usados em borbotões. Alguns exemplos: a terceirização beneficia os trabalhadores e aos estados da federação compete adotar ou não essa medida. Outra: a mudança nas regras da aposentadoria somente vai atingir àqueles que ganham altos salários. Mas, como diz o ditado popular, peixe morre pela boca. Ao falar sobre a transposição das águas do São Francisco, eis que o erudito das mesóclises contradir-se-ia.
Perguntado se ele assumiu a paternidade da obra, respondeu que jamais afirmou tal coisa, o que disse foi que não negava a iniciativa de Lula, mas a paternidade da transposição era do povo brasileiro, que pagou impostos para realiza-la. Na sequência, perguntado se era um fraco, conforme declaração de Dilma, respondeu prontamente que não, bastava ver o que tinha feito pelo Brasil em tão pouco tempo. Significa dizer que a paternidade de obras em seu governo não é do povo. Pensando bem não é mesmo. O povo jamais teria tanto sadismo para prejudicar-se.
Publicada em “O Progresso” em 25/03/2017