Uma nova ordem social é possível, mesmo porque atualmente o povo nas ruas e as redes sociais são capazes de sobreporem-se a estrutura dominante e conseguirem mudanças revolucionárias que outrora só se fazia com o uso da espingarda. Não obstante a possibilidade de pressão popular, como na fábula de La Fontaine, a questão é “quem colocará o guizo no pescoço do gato? ” Pois, se por um lado, a tendência é de que a pressão da classe trabalhadora se avolume, por outro, a classe dominante, representada pela superestrutura constituída por parlamentares, juízes, grande mídia e estruturas policiais, se agarram ao poder e buscam alternativas paliativas para deixarem tudo como está. O golpe, que derrubou Dilma, buscou soluções arrochando a classe trabalhadora, mas provocou a resistência popular porque naufragou na lama da corrupção, acirrou a luta de classes, disseminou o ódio, transformando o país em bomba relógio sem hora marcada para explodir. Foi o tiro saindo pela culatra.
Lembro-me da história de um casal de professores que há uns 30 anos atrás não encontrava a saída do metrô de Paris. La sortie, la sortie, (a saída, a saída) indagavam eles, mas os parisienses, talvez porque a saída do metrô fosse uma obviedade para eles, apenas sorriam, não entendiam que o casal brasileiro procurava sair daquele labirinto. Assim parece ser a situação brasileira. A saída para a nossa crise política é tão óbvia que nem se fala sobre ela, mas em nosso caso não é por não se entender a obviedade da situação, mas porque essa saída afetaria interesses gigantescos, feriria de morte os trambiqueiros que se escondem sob a imunidade que lhes proporciona o mandato executivo, legislativo ou mesmo a toga ou as estrelas de xerifes de alguns agentes policiais.
Infelizmente não se coloca o dedo na ferida, a elite procura saídas paliativas, adia, protela, projeta reformas no sentido de que “algo deve mudar para que tudo continue como está” (Lampeduza). Mas a retumbante realidade é que o nosso sistema político, judicial, econômico e social está morto, embora insepulto; fede, mas tampamos o nariz. O velho sistema se decompõe, agoniza, mas custa a morrer, por isso o novo não nasce espontaneamente, precisa ser a fórceps.
Para que a crise brasileira não se agrave ainda mais, penso que a solução é a deposição do presidente interino e a convocação de eleição direta dentro do prazo de 60 dias. Ao mesmo tempo deveria ser eleita uma Assembleia Nacional exclusivamente Constituinte. Seus membros voltariam para casa imediatamente após a conclusão dos trabalhos sem o direito de se candidatarem a cargos eletivos. Isentos de interesses carreiristas na política, os constituintes poderiam trabalhar sem grandes pressões na elaboração de uma nova ordem política, jurídica e social para o nosso país. Claro que políticos com mandatos não poderiam participar dessa Assembleia, nem promover mudanças na ordem vigente, embora pudessem concluir os seus mandatos, tempo suficiente para que a Justiça, sob pressão popular, em um mutirão democrático, julgasse os envolvidos em falcatruas e os eliminasse da vida pública.
Estabelecer os critérios para essas medidas ocuparia mais espaço do que o de uma crônica, mas é possível. Nos sessenta dias de vacância do poder executivo o país seria governado pelo presidente do Supremo Tribunal Federal. O problema é que quem está no poder (executivo, legislativo e judiciário), não tem interesse algum em acabar com foro privilegiado, salários exorbitantes, mordomias incontáveis, abusos do poder judiciário, regulamentação da estrutura policial, extensão da educação de qualidade a todos os brasileiros, oferecimento de saúde pública. Enfim, além dos donos do poder, não podemos excluir os beneficiários dos privilégios, especialmente os rentistas, que não permitem que se ataque questões que realmente geram a crise, como a questão da dívida pública, um sumidouro de recursos que poderiam ser destinados em benefícios ao povo.
O acumulo de riquezas nas mãos de poucos não pode durar para sempre, as próprias contradições internas do capitalismo haverão de moldar um modo de convivência social mais justo. A esperança ainda vive em mim, por isso digo com Lenon e Yoko Ono: “Você pode me dizer que sou um sonhador. Mas não sou o único”.
Publicada em “O Progresso” em 8/04/2017