Rogério Ceni, técnico são-paulino, teria atirado a prancheta ao chão e ela quicado atingindo um jogador. Ele negou, ratificando o depoimento de outro colega que afirmou que prancheta não quica. Aí os comentaristas debateram durante minutos intermináveis sobre a possibilidade de uma prancheta quicar, propuseram um teste de laboratório e eu, telespectador, mudo de canal, mas em outro tenho uma espécie de continuidade. Ouço teses sobre a arte de uma prancheta quicar, se o seu lançamento ao solo significaria uma crise emocional do treinador, um desabafo, uma crise no clube. Enfastiado desligo a TV e fico imaginando quantos canais de televisão estão à nossa disposição durante 24 horas diárias, quantos programas, quantos temas e, acima de tudo, quanto besteirol?
Se os leitores de crônicas já as acham muito longas, apesar de seu espaço reduzido, haverá telespectadores com tempo disponível para tantas discussões irrelevantes diante das tarefas mil que os tempos contemporâneos nos impõe?
Mas os comentários sobre o quicar da bola ou da raquete não alteram o preço do dólar e nem geram desemprego, agora quando quicam as falcatruas e quicam as investigações, processos e julgamentos, não podemos ficar com baboseiras, é preciso agir com rapidez, sem perder a serenidade; com justiça, sem privilégios.
Na última quarta-feira, por exemplo, uma bomba atômica explodiu sobre a cabeça dos golpistas que derrubaram o governo Dilma, aprofundando a crise política em nosso país. Então, mesmo havendo notícia importante, nos enfastiamos com a sua repetição, com os detalhes, com as análises, com um chove não molha, e a nossa pressa em sabermos e resolvermos não é correspondida pela imprensa, nem pela Justiça e muito menos pelo Congresso Nacional.
Vinte horas depois de ser alvejado no peito, na quinta-feira, Temer fez um pronunciamento à nação afirmando que não renunciaria, evidentemente para não perder o foro privilegiado. Mas, ó céus. Delcídio, mesmo tendo foro privilegiado não foi preso por obstruir a Justiça? O que fizeram Temer, Aécio e o próprio juiz Moro? Por que não foram presos?
As investigações e os processos judiciais pululam, pipocam, quicam por todos os lados. Quicam, e assim como a bola que engana o goleiro, muitas das investigações, muitos dos processos acabam nos enganando também.
Com a metáfora “quicam os processos”, desejo dizer que eles estão batendo muito mais rapidamente do que a capacidade da Justiça em responder com soluções rápidas, ou seja, na mesma proporção de nosso corre-corre alucinado. Ao quicarem tanto, os processos não resolvidos geram uma espécie de autofagia da Justiça. Significa que se trata da Justiça autodevorando-se, consumindo-se a si própria. É complexo, mas tomemos a Lava Jato por exemplo: demorando para resolver os processos pendentes, com absolvição ou incriminação dos indiciados, acaba prejudicando o país, destruindo grandes empresas, tanto da construção civil quanto a petrolífera ou náutica. A autofagia se dá porque esse tipo de justiça está destruindo quem a alimenta, pois não fora a atuação de milhares de trabalhadores dessas empresas o Brasil não suportaria as despesas de seu poder judiciário, um dos judiciários mais caros do mundo.
A lentidão do Judiciário brasileiro não é mais compatível com os tempos vertiginosos em que vivemos. É necessário, com urgência, encontrarmos meios mais rápidos para resolvermos nossas questões, sem cairmos no autoritarismo.
E se não encontrarmos logo uma solução continuaremos assistindo a Mídia fazendo julgamentos antecipados, continuaremos vendo as nossas penitenciárias superlotadas com 40% dos detentos esperando ainda por julgamento.
Nas democracias renegamos a vendeta e delegamos a governantes e juízes o poder de nos proteger, queremos que reine a Justiça, mas nos indignamos com imparcialidades; queremos provas, não “domínio do fato” ou “convicção”; desejamos e lutamos por segurança, por respeito às nossas conquistas, para atingirmos um mundo mais justo. E, por fim, desejamos que a Justiça e a Mídia não nos devorem e que não se devorem a si próprias tornando-se desacreditadas em prejuízo de nosso país.
Dado o imbróglio que vivemos já se aponta como solução manter essa elite corrupta no poder, mas o ideal seria deixar o povo decidir seus destinos.