Eram constantes os ensinamentos de meus velhos sobre como as pessoas deveriam se comportar. Mentir, jamais, pois “a mentira tem pernas curtas” diziam eles, ou seja, seriam logo descobertas e o mentiroso punido. Diziam também que “um mentiroso é um ladrão”. As crianças ficavam assustadas pois ninguém queria virar ladrão. Era completamente fora dos padrões éticos familiares, além de que ladrões eram sempre malvistos e iam para a cadeia, um lugar horrível, cheio de sofrimentos. As crianças daqueles tempos entendíamos que se mentíssemos viraríamos ladrões. E essa parecia ser realmente a ideia que nos queriam passar. Bom, mas no mínimo, no mínimo, “quem mente rouba, porque rouba o direito do outro de saber a verdade”.
Shakespeare disse, lei lá onde, que “A suspeita sempre persegue a consciência culpada; o ladrão vê em cada sombra um policial”. Essa máxima é correta para as pessoas com formação íntegra, ou seja, uma pessoa com estrutura moral suficientemente desenvolvida para saber distinguir o certo do errado. Por via de consequência, se comete algum deslize, não dorme tranquila, sua consciência lhe tira o sono, portanto, a sombra do policial pode ser a sua própria consciência. Talvez Shakespeare não tenha pensado nos psicopatas. “Os psicopatas são os vampiros da vida real. Não é exatamente o nosso sangue que eles sugam, mas sim nossa energia emocional. Podemos considerá-los autênticas criaturas das trevas. Possuem um extraordinário poder de nos importunar e de nos hipnotizar com o objetivo maquiavélico de anestesiar nosso poder de julgamento e nossa racionalidade. Com histórias imaginárias e falsas promessas nos fazem sucumbir ao seu jogo e, totalmente entregues à sorte, perdemos nossos bens materiais ou somos dominados mental e psicologicamente” (Ana Beatriz Barbosa Silva. Excerto do livro 'Mentes Perigosas'.
Quando um psicopata assume o poder de um país e atraí junto de si, como ministros e conselheiros, os seus iguais, forma-se um governo sem consciência do que seja governar, trabalhar como harmonizador social. Esse grupo impulsivamente mente, rouba, suborna empresários, destrói instituições nacionais e submete o povo governado à pobreza.
Mas a mentira pode ser facilmente eliminada, e os mandatários que a usam para roubar, seja o dinheiro, o emprego do povo ou o desenvolvimento da nação, podem ser punidos pela Justiça, instituição que tem, ao menos em tese, o poder de mostrar a verdade. Mostrar provas, para que a verdade prevaleça sobre o engodo.
Se a Justiça for incapaz de produzir provas contra os ladrões, prevalecerá a impunidade. A Justiça deve estar sempre em dúvida porque é a dúvida que move a busca da verdade. Formar convicção é algo perigoso. Friedrich Nietzsche nos ensinou que “as convicções são inimigas mais perigosas do que as mentiras”. Serão mesmo? É de se pensar.
Particularmente estou convencido de que se estou convicto de algo, fecho-me sobre esse convencimento e não aceito absolutamente nada que me remova daquilo que formulei como verdade absoluta. Se estou convicto de algo, fico cego; nenhuma verdade, mesmo irrefutável, me fará mudar de opinião. Já a mentira, é facilmente eliminável uma vez que se mostre a verdade.
Se formo convicção e me equivoco, caio no fanatismo, boto um tapa-olhos, como se faz com os cavalos que puxam carroças, mas sou eu mesmo quem sofre as consequências, individualmente, no máximo prejudico alguns familiares. Quanto à Justiça, não é admissível que julgue por convicção, pois ela possui os mecanismos próprios e necessários para a busca de provas; possui leis que lhe permite buscas, apreensões; possui ao seu dispor investigadores capacitados, enfim a justiça não é feita por convicções, mas com provas.
Difícil decisão. Ficamos com a mentira de certos políticos que, com elas, enganam o povo, destroem o patrimônio público, causam desemprego e fome, ou ficamos com os juízes convictos que, mesmo sem provas cabais, prendem e destroem reputações, sem a menor parcimônia?
Triste época vivemos em nosso país. Trabalhamos, lutamos para honrá-lo e alguns políticos nos iludem com mentiras para se locupletarem. Triste época em que as irregularidades judiciais, devido às convicções, nos levam a desconfiar de juízes que, em casos análogos, uns prendem e outros mandam soltar.