As orações fazem parte do cotidiano dos praticantes de todas as religiões. No cristianismo a mais recitada é o “Pai Nosso”, no mundo católico, em particular, outras duas orações são largamente prestigiadas: o “Credo”, estabelecido no Concílio de Nicéia em 325 e “Salve Rainha”, criada em meados do ano mil por Herman Contrat. Esse monge alemão viveu em época de crise e, portanto, não é de admirar que ao longo dessa oração encontremos “ a vós bradamos os degredados filhos de Eva [...] “a vós recorremos, gemendo e chorando, nesse Vale de Lágrimas”. Essa oração, rapidamente difundida no mundo católico, não obstante a sua beleza, inspira certo pessimismo: degredados refere-se aos condenados e Vale de Lágrimas seria um mundo de padecimentos, portanto estaríamos condenados a ter uma vida sofrida, viveríamos em um pequeno inferno.
“Essa vida é um inferno” diziam pessoas antigas quando se lamuriavam por alguma desgraça. Mas o que é mesmo o inferno? O próprio Vale de Lágrimas? O descrito por Dante, na “Divina Comédia”? A geena (lago) de fogo, que aparece no Apocalipse? Ou o inferno seriam “os outros”, como descreveu Sartre em sua consagrada peça “Entre Quatro Paredes”?
Em épocas de crises generalizadas, como a que estamos atravessando atualmente no Brasil, parece a muitos que só nos resta rezar, cantar ladainhas, fazer procissões. Mas não, nesses momentos infernais, além da fé, é preciso encontrarmos novos caminhos, participarmos de ações que mantenham a esperança de que um mundo melhor é possível.
Ítalo Calvino em sua magistral obra, “As cidades invisíveis”, nos ensina que o inferno dos vivos é aquele que vivemos diariamente quando estamos juntos. E continua: “somente existem duas maneiras de não sofrer [...] aceitar o inferno e tornar-se parte deste até o ponto de deixar de percebê-lo [...] tentar reconhecer quem e o que, no meio do inferno, não é inferno e preservá-lo, e abrir espaço”. Aceitar o inferno parece ser mais fácil e opção da maioria do povo, no entanto basta visitarmos a História do Brasil para percebermos que houve muita gente em várias épocas que preservaram o que não era inferno e abriram espaço para a construção desse país, que parece ser um verdadeiro milagre. Senão vejamos, mesmo que superficialmente.
Logo após os portugueses terem aportado no Brasil em 1500, houve várias outras nações que aqui tentaram estabelecerem-se, a exemplo dos holandeses e franceses. Ninguém conseguiu sequer um pedacinho de nossa terra. Em 1808, com vinda da família real, a Colônia Brasil tornou-se Reino Unido de Brasil, Portugal e Algarve. Quando foi proclamada a nossa independência, houve lutas com os portugueses, especialmente na Bahia, entre fevereiro de 1822 e 2 de julho de 1823, quando os lusos foram expulsos. D. Pedro I, feito Imperador, conseguiu manter o Brasil unido, não obstante as revoltas republicanas. E quando D. Pedro II, com 14 anos, tornou-se imperador e foi estabelecida a Regência? Apesar das revoltas, especialmente a Farroupilha (1835-1845), não houve divisão territorial no Brasil.
Depois veio a proclamação da República, a Revolução de 1930, a de 1932, a ditatura Vargas (1937-1945), o golpe de 1964 que estabeleceu a ditadura militar até 1985 e o Brasil não sofreu divisões.
Ao longo de nossa história foram muitas as possibilidades de nosso país ser dividido, a exemplo do que ocorreu com a América Espanhola. Sempre houve interesse de potências mundiais em ver o Brasil fragmentado, inclusive agora, no entanto o país foi mantido territorialmente unido. Milagre?
E que dizer de nossa natureza, da abundância de água, da extensão territorial, do clima, da riqueza mineral que possuímos?
Ao longo de nossa história superamos obstáculos enormes, saímos das garras do FMI, promovemos a campanha das “Diretas Já”, vencemos a ditadura, zeramos a nossa dívida externa, transformamo-nos na oitava economia do planeta. Por que não haveremos também de superar essa enorme crise? Vivemos tempos de inferno, portanto é hora de decidirmos se nos conformamos e aceitamos essa situação, extraordinariamente perversa para o povo, ou se seremos capazes de definir o que ainda não é inferno e, a partir de então, preservarmos essa parte boa e seguirmos adiante na busca de um Brasil mais justo, mais fraterno e mais igual.
Publicada em “O Progresso” em 15/07/2017.