Dois participantes de uma conversa faziam prognósticos: o geógrafo disse que nos próximos cem anos, a humanidade, para consumir proteínas, terá que criar insetos em gavetas. Povos orientais já compram insetos para alimentarem-se, por que não imaginar o Ocidente adotando tal prática. O engenheiro, por sua vez, não admite essa hipótese, acredita que nos próximos anos haverá um declínio populacional muito grande e que ainda teremos proteína de animais de grande porte para ser consumida.
Não me imiscui na conversa, nem degustei do bom vinho que era servido. Tinha que preservar-me, na manhã seguinte encararia oitocentos quilômetros de estrada dirigindo o carro. A idade pesa, o que anos atrás era brincadeira, quando se beira os 70 anos de idade, passa a ser façanha.
Se tivesse entrado nesse ensaio de futurologia iria prolongar ainda mais a discussão. Poderia botar umas pitadas de pimenta, isso porque estou lendo “Homo deus: uma breve história do amanhã”, de Yuval Noah Harari. Nessa instigante obra o autor diz que em breve os humanos poderão viver 150 anos. Fico imaginando, se com setenta, ainda incompletos, abstive-me de um bom vinho para precaver-me por ter que dirigir, o que eu haveria de fazer se tivesse que viver mais oitenta anos?
Faria sentido atingir 150 anos de idade sem que houvesse concomitantemente uma retomada do vigor físico e da alegria dos jovens?
Em crônica postada na Folha de São Paulo, na quarta-feira passada (26/07), “A velha na janela”, Jairo Marques narra que telefonou para a sua mãe septuagenária e ficou triste em ouvir a resposta: “Tudo na mesma, meu filho. O tempo parece que não passa aqui em casa. Os dias são tão longos, as noites mais compridas ainda. Fico num desassossego… Nada parece estar bom”.
Com setenta, a velha senhora parece muito mais desanimada do que eu com a mesma idade. A ela também faltariam ainda oitenta anos para os cento e cinquenta. Se junto com a longevidade não vier o entusiasmo, a libido e a vontade de realizar algo, não terá valido absolutamente nada os esforços das ciências para alongar a vida.
A longevidade, segundo Harari, se daria juntamente com o avanço da inteligência artificial, uma probabilidade que poderá se sobrepor à consciência humana. Teríamos no futuro próximo robôs capazes de tudo, menos de amar. Talvez os humanos pudessem até amá-los, mas jamais seriam correspondidos. É perceptível a nossa caminhada nesse sentido, o Google que nos sirva de exemplo com os seus robôs respondendo friamente a quaisquer de nossas perguntas e com os seus carros autônomos.
Uma pergunta não cala: o que restaria para os humanos fazer? Dizer que no amanhã viverão o dobro da média de idade atingida atualmente é fácil, difícil é saber como será a vida.
Ao autor de “Homo deus” atribuo um otimismo exagerado. Para ele a humanidade será mais longeva porque as guerras, as epidemias e a fome praticamente desapareceram da face da Terra nos tempos atuais. Mas não é o que diz o diretor de operações do Comitê Internacional da Cruz Vermelha. Em entrevista para Fernando Tadeu Moraes à Folha de São Paulo em 15/07/2017. Dominik Stillhart afirma que a crise humanitária no mundo é a pior já vista. Cita a fome em vários países africanos, as guerras tanto no Oriente Médio quanto na África, a crise venezuelana, o terrorismo espalhado pelo mundo, enfim não deixa de mencionar a sua preocupação pelo fato de no Brasil morrerem 50 mil pessoas por ano vitimadas por armas de fogo. E ainda faltou dizer dos tiroteios nos Estados Unidos e em outros países.
Escrever a história, ou seja, os acontecimentos do passado, mesmo que esse passado seja o que acabou de acontecer, não é tarefa fácil, uma “história do amanhã”, mesmo que “breve” é inconcebível. Quero dizer que o livro de Harari não passa de especulações futurólogas que podem ou não ocorrer. O título é um chamariz, tão atrativo quanto o livro.
Os humanos poderão viver 150 anos e ter recursos até para teletransportarem-se, assim como poderão ser destruídos por bombas atômicas ou ainda mais mortíferas. Não dá para prever se haverá insetos ou outras fontes de proteína para comerem.
Resta perguntar: quem dentre os humanos viverá 150 anos. Os mais ricos, que poderão recorrer às mais sofisticadas técnicas de tratamento, ou também os trabalhadores, sem exceção?
Publicado e "O Progresso" em 29/07/2017.