Na quarta-feira, dois de agosto, assistimos, pela primeira vez na história brasileira, a uma votação que implicava em autorização para que o presidente da república fosse investigado pelo Supremo Tribuna Federal por crime de corrupção passiva no exercício do mandato. Inédita, essa votação esteve envolta em um clima de desconfiança, contradições e de suspeitas mal esclarecidas. Mais um capítulo de nossa história que gera constrangimento aos brasileiros e enorme prejuízo da imagem do Brasil no exterior.
A acusação contra Temer, feita por Rodrigo Janot, da Procuradoria Geral da República, deixa evidente que o presidente participou de um esquema de corrupção. Recebeu na calada da noite o maior corruptor já conhecido em nossa história, Joesley Batista. O presidente foi gravado, fez encaminhamentos e recomendações, comprovadas posteriormente por investigações da polícia federal, no entanto conseguiu escapar.
Ao que tudo indica a ex-presidente Dilma, que teve o seu mandato cassado pela mesma Câmara, passou por “incompetente”. Continuaria governando até hoje se tivesse massacrado a construção civil, retirando dinheiro do PAC; sucateado o ensino superior, cortando as verbas das Universidades; quebrado o SUS, jogando doentes para as macas em corredores de hospitais; arrebentado com a classe trabalhadora, tirando direitos antes garantidos na CLT; desestruturando a segurança pública, cortando verbas e distribuindo bilhões em emendas parlamentares, fator gerador de mais corrupção.
Essa “incompetência” da presidente, que acreditava na honestidade dos parlamentares e não os comprou, talvez tenha levado o STF a interferir várias vezes durante o processo do impeachment e emudecido em relação à apreciação da licença que a Câmara daria para que Temer fosse investigado.
Ironias à parte, o dia 2 de agosto de 2017, deverá ser reconhecido pela história como o “dia da vergonha nacional”. Tinha que ser em agosto, mês de cachorro louco, mês do suicídio de Getúlio, da renúncia de Jânio, da morte de Juscelino e, nesse ano de 2017, o mês em que 263 deputados federais decidiram mostrar ao povo brasileiro que o crime compensa. Os 227 que votaram favorável à abertura das investigações não foram suficientes para evitar mais esse mal exemplo do Brasil para o Mundo.
Agora que Inês é morta resta-nos perguntar: seriam os deputados fidedignos representantes do povo? Representariam eles os interesses de seus respectivos partidos? Formariam bancadas extraoficiais? Ou seriam parte de uma grande quadrilha?
Se fossem representantes do povo, haveríamos de estabelecer então uma proporção: 263 deputados, que inocentaram Temer, estaria para 210 milhões de brasileiros, assim como 217, que votaram para que fosse investigado, estaria para X. Nestes termos aproximadamente 173 milhões de brasileiros estariam representados pelos que inocentaram Temer e 45 milhões se sentiriam representados pelos deputados que votaram pela investigação de Temer.
Raciocinar nesses termos poderia explicar a pequena reação do povo, que pouco saiu às ruas, diferentemente do que aconteceu quando do impeachment de Collor e de Dilma.
A resposta a outra questão, se os deputados representam os seus partidos, é mais simples: não, não representam, pois houve inúmeras defecções.
De que formam bancadas extraoficiais parece não existir dúvidas. Se apoiados financeiramente por determinado setor, a tendência é que se juntem na defesa desse setor, a exemplo das bancadas da Bala, da Bíblia e do Boi? Claro que existem outras bancadas que não formam um BBB (Big Brother Brasil), a exemplo da que defende os industriais, os rentistas, etc.
Por fim, formariam os deputados que inocentaram Temer, uma grande quadrilha, vinculada com ele? Não tenho provas. Não creio em bruxas, mas...
Mas pode ainda haver outras razões para que o povo não tenha saída às ruas. Constituiríamos uma massa passiva e alienada? Estaríamos nos conformando e comportando-nos despudoradamente como aqueles deputados que mentem e roubam? Ou, sendo otimista, estaríamos constituindo um imaginário social (inconsciente coletivo) que daria uma resposta adequada, no momento certo, talvez nas próximas eleições?
Alguma coisa haverá de acontecer, afinal, parafraseando Machado de Assis: “Se isto não é o fim do mundo é o penúltimo capítulo”.