Os versos de Castro Alves sobre o livro, embora escritos em 1870 (Espumas Flutuantes), ainda conservam o frescor, como o da gota de orvalho pousada sobre a face de uma maçã ruborizada de pudor: “Oh! Bendito o que semeia / Livros à mão cheia / E manda o povo pensar! / O livro, caindo n’alma / É germe – que faz a palma / É chuva – que faz o mar! ”.
Ocorreu-me a lembrança de Castro Alves porque nessa última quinzena de agosto, vários eventos demonstram a importância do livro para a formação de cidadãos. Destaco quatro.
No dia 15, terça-feira, a Editora da UFGD promoveu o lançamento de vinte livros. Vinte obras que, somadas aos lançamentos anteriores, aproximam-se de 200 livros editados. Significa dizer que a UFGD está mantendo uma média de vinte livros anuais, pois a sua editora recém completou dez anos de existência. Trata-se de um número expressivo. Não são muitas as cidades de porte médio, como Dourados, que têm uma editora tão atuante e, algumas outras, com destaque à de Nicanor Coelho, que tem também e torno de duzentos livros editados.
Os livros da UFGD têm a vantagem de ficarem disponíveis aos interessados, bastando acessar https://portal.ufgd.edu.br/setor/editora/catalogo para baixa-los em PDF. Dentre os livros lançados neste ano o leitor poderá encontrar no catálogo (até o final de setembro), um de minha autoria: “2010: o ano que não acabou para Dourados”, mas esse não é o destaque. Existem livros em várias áreas do conhecimento humano, inclusive um que reúne artigos de quarenta autores: “Povos indígenas de Mato Grosso do Sul”, com a coordenação da professora Graciana Chamorro.
Já pensou o leitor o esforço para reunir quarenta autores? E que tal 120? Pois é, nos dias 11 e 14 de agosto, foi lançado, respectivamente, na Faculdade Nacional de Direito, no Rio de Janeiro e na Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC), o livro “Comentários a uma sentença anunciada – o processo de Lula”. Trata-se de 103 comentários de 120 juristas de notório saber sobre a sentença proferida pelo juiz Sérgio Moro, condenando o ex-presidente Lula. Em ambos os lançamentos os livros se esgotaram. No Rio, o auditório comportava 400 pessoas, mas nada menos do que dois mil interessados estiveram no local. Trata-se, portanto, de um sucesso absoluto que, infelizmente, somente chegara às nossas boas livrarias de Dourados, se houver uma segunda edição.
Na descrição do livro, editado (também em inglês) pela Saraiva, está dito que ““Comentários a uma sentença anunciada: o Processo Lula” é talvez o mais importante documento jurídico publicado no Brasil em décadas (...) é uma espécie de Carta Compromisso com a Cidadania, a Democracia e o Estado de Direito”.
O terceiro destaque refere-se ao livro “José”, de Carlos Drummond de Andrade, falecido em 17 de agosto de 1987, portanto 30 anos atrás. Sobre Drummond muitos dizem que só não ganhou o prêmio Nobel de Literatura porque não escreveu em inglês, mas com certeza, foi o poeta mais influente do Brasil e, ainda hoje, continua atual. Lembra-se o leitor de que “no meio do caminho tinha uma pedra / tinha uma pedra no meio do caminho”. Pois não é atual? E que dizer do poema “José”, publicado em 1942, não tem tudo a ver com hoje?: “E agora, José? / A festa acabou, a luz apagou / o povo sumiu / a noite esfriou / e agora, José? / e agora, você? / você que é sem nome / que zomba dos outros / você que faz versos / que ama, protesta? / e agora, José? (...) se você gritasse / se você gemesse / se você tocasse / a valsa vienense / se você dormisse / se você cansasse / se você morresse... / Mas você não morre / você é duro, José!
“E agora José” foi publicado, como disse, em 1942, em plena Segunda Guerra Mundial (1939-1945), tempos em que a guerra era cruel e mortífera, assim como ainda são muitas das guerras atuais. A Mídia, também como a atual, era falaciosa, cada lado pintando o outro com as cores que lhes convinha, para iludir os incautos. Só não existia, parece-me, o lawfare, “a guerra jurídica”, como assistimos diariamente nos dias atuais.
O último destaque fica para livros sobre o folclore, comemorado em 22 de agosto. Antecipando a data, hoje (19/08), a partir das 19 hs, a Academia Douradense de Letras fará um sarau na Casa Arandu, no Parque dos Ipês. Você será bem-vindo.
Publicada em "O Progresso" em 19/08/2017