Enfadado com seus encargos o rei vai à caça com um escudeiro. Floresta adentro, o rei se arranha e lamenta-se. Não se preocupe, diz-lhe o escudeiro: “tudo o que acontece é para o bem”. Segue a caçada, mas tudo conspirava contra o rei e o escudeiro repetia à exaustão: “tudo o que acontece é para o bem”. Ao desembainhar a espada para abrir uma picada, eis que o rei decepa um dos dedos. E o arqueiro repete: “tudo o que acontece é para o bem”. Furioso, o rei tenta golpeá-lo, mas ele foge.
Ato seguinte eis que uma tribo da floresta aprisiona o rei e o leva à aldeia onde é preparada uma fogueira na qual ele seria oferecido como sacrifício. Para acender o fogo chega o pajé. Todos dançam e cantam ao redor do rei, mas o pajé manda parar o ofício: “Como oferecer aos deuses um homem mutilado? Não viram que lhe falta um dedo? ”
O rei foi solto e reencontrou o escudeiro. “Não precisa fugir, você tem razão, “tudo o que acontece é para o bem, se não houvesse decepado o dedo estaria queimado”. Prontamente o arqueiro responde: “E se o senhor não me tivesse perseguido com a espada seríamos aprisionados juntos e o queimado seria eu que estou com os meus dez dedos intactos. ”
Pois é. E diante da gravíssima crise pela qual passa o nosso país, o que haveremos de dizer: que tudo o que acontece é para o bem? Ou seremos pessimistas a ponto de pensarmos como Murphy: “se algo puder dar errado dará”?
A crise que atravessamos é profunda. Por trás dela não poderia faltar a bandeira norte-americana que muito contribuiu na derrubada de uma presidente honesta para colocar no poder uma quadrilha que está destruindo o Brasil. Não somente pela corrupção, mas pela política neoliberal e entreguista que está promovendo. Pior, esse grupo chegou ao poder graças à participação de uma banda da polícia e do judiciário, atrelada à operação Lava a Jato. Historiadores e jornalistas críticos já estão desvelando os podres dessa operação aliada diretamente aos interesses dos norte-americanos que desejam comprar barato o que for sucateado, a exemplo da Petrobrás, Eletrobrás ou o que quer que seja.
E é nas conjunturas de crise que surgem uma voz aqui outra ali pedindo intervenção militar. Ato seguinte oficiais da reserva começam a se manifestar, até que um ou outro general da ativa diz publicamente que o exército deve intervir. Então o povo, vendo que a política está viciada e que o próprio judiciário já não se faz respeitar, acredita que a solução está mesmo na intervenção militar.
Não foi diferente em 1964, Castelo Branco desejava ficar dois anos no poder, sanear a política brasileira e devolver ao povo o direito de escolher os seus representantes. Os dois anos se transformaram em 21 e o que era para ser a salvação transformou-se em horror, com prisões, torturas e mortes.
Quem defende intervenção militar deve atentar para o fato de que o exército não foi feito para governar, o exército é constituído para a defesa da nação. No exército não se pratica a democracia, a hierarquia militar não o permite. E deve ser assim mesmo, em uma eventual ação bélica as ordens devem ser cumpridas, mesmo que sujeitas a erros táticos ou estratégicos.
Deplorável o General Mourão pronunciar-se a favor de uma intervenção. Questionável a atitude do comandante do exército Vila Boas em não punir o seu subordinado. Felizmente uma ressalva, ele diz que Mourão “não fala pelo Alto Comando, quem fala pelo Alto Comando sou eu”. De qualquer forma não devemos nos esquecer de que altos comandos muitas vezes caem em sublevações de oficiais subalternos.
O futuro é incerto. Até mesmo o professor Moniz Bandeira, da Universidade de Brasília, intelectual nacionalista de esquerda defendeu uma intervenção militar alegando que "o importante é impedir que o patrimônio nacional - Eletrobrás, Eletronuclear, Petrobrás e pré-sal, bancos estatais - seja dilapidado, entregue aos gringos: é evitar que o desenvolvimento do Brasil, com a inclusão, não seja interrompido; é impedir a entrega aos gringos de uma parte da Amazônia maior que a Dinamarca".
O perigo ronda o Brasil. Tudo o que acontece é para o bem? Talvez seja hora de esquecer os “Mourão” e nos lembrarmos de Buda: “somente o amor dissipa o ódio”, ou de Cristo: “amai-vos uns aos outros”.
Publicado em “O Progresso” dia 23/09/2017