O Brasil poderia ser uma dentre as cinco grandes potências mundiais. Se primeiro ou quinto, não dá para cravar, mas com certeza reuniria condições extremamente favoráveis. Não me refiro a potência militar que transformaria o nosso país em império impositor de sua hegemonia pela força bruta, mas uma potência econômica que se imporia politicamente pelo soft power, ou seja, o poder brando, o poder da diplomacia em fazer com que o país seja respeitado pelas políticas públicas que desenvolve. Um país sem fome, sem desemprego, sem trabalho análogo à escravidão; um país com Índice de Desenvolvimento Humano – IDH – elevado, a exemplo da Dinamarca, Suécia, Suíça, seriam condições para sermos uma potência do bem.
Temos território, diversidade climática e variedade de solos que nos permite produzir alimentos para o mundo, gerando incomensurável riqueza, especialmente se forem industrializados. Também as nossas jazidas minerais, se transformadas industrialmente, poderiam render muito mais que a simples exportação dos produtos brutos. Aplicar em atividades produtivas seria o caminho, embora a plutocracia brasileira esteja inclinada a ganhar mais investindo no mercado de capitais e nas letras do tesouro. Juros elevados estão sendo mais atrativos e de menor risco do que a atividade produtiva.
Resta saber que o governo paga juros elevados porque as suas finanças estão desequilibradas. Os déficits anuais se avolumam constituindo-se em uma dívida pública que supera os três trilhões e trezentos bilhões de reais. E como zerar o déficit?
Para duas alternativas governamentais, duas soluções. Os governos neoliberais cortam despesas onde podem. Temer, por exemplo, cortou catorze reais do salário mínimo para o ano que vem. Para o governo uma migalha, para quem consegue viver com novecentos e sessenta e cinco reais é uma perda de cinco quilos de arroz. Cortou também 4 milhões de beneficiários do bolsa família, o que significa um corte de 4 bilhões ao ano. Para o governo outra migalha. Se tivéssemos um governo socialdemocrata, aumentar o salário mínimo e não somente manter, mas ampliar uma renda mínima para os brasileiros, significaria aumento de consumo de 14 reais mensais para quem vive do mínimo e de 4 bilhões anuais para quem receberia bolsa família. Quer dizer, ao final da soma de todos os impostos arrecadados pelo governo geraria em torno de 1 bilhão e duzentos mil. Os economistas que desmintam esse historiador que mal dá conta de suas próprias despesas.
Continuando a comparação. Quando das crises econômico-financeiras, os governos neoliberais vendem o patrimônio público, constituído pelo trabalho de várias gerações de brasileiros; os governos socialdemocratas investem em obras públicas, sejam hidrelétricas, casas populares ou universidades. Essas iniciativas não geram apenas empregos, e isso seria o suficiente, mas geram oportunidades para os menos favorecidos, geram ciência e tecnologia, geram Índice de Desenvolvimento Humano.
Temos população numerosa, beirando 208 milhões de consumidores. Poderia dizer cidadãos consumidores, se a justiça fosse igual para todos e as possibilidades de acesso à dignidade econômico-financeira também o fossem. Geopolíticos diziam que território e população constituem poder. Não deixam de ter razão, China, Rússia, Estados Unidos e a emergente Índia, estão a comprovar essa assertiva. O que se necessita é o incremento do mercado interno de modo que a renda de cada indivíduo seja suficiente para sustentar o consumo da produção do país. A exportação dos excedentes garantiria reservas cambiais suficientes para a superação de crises cíclicas que ocorrem no capitalismo.
Os brasileiros devem se lembrar de que em 2002 o Brasil teve que se humilhar ao FMI e fazer um empréstimo emergencial de 48 bilhões e que em 2012 tínhamos superado essa dependência e constituímos uma reserva de 380 bilhões de dólares.
Em grande parte, o Brasil deve esse superávit ao agronegócio e à política diplomática de expansão do mercado ao Mundo Oriental, mas o agronegócio não é a panaceia, ao contrário, demonstra a nossa incapacidade de transformarmos o grão. Quantas toneladas de soja ou de minério seriam necessárias para comprarmos um chip?
Dizia Ediberto que o pão, o chão e o grão, são as armas de plantar liberdade.